segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A mãe do Borat

Viajei de Amsterdam para Tel Aviv via Bucareste com a infame TAROM. Estive na Romênia há uns 10 anos atrás e a atmosfera opressiva comunista se mantinha embora a transformação em algo capitalista estivesse em curso. É notório que os anos por trás da cortina de ferro deixou marcas indeléveis: pessoas ríspidas, duras desde o tom de voz. Tendo o embarque em Amsterdam terminado, uma atarracada comissária contava aqueles à bordo. Um desavisado. coitado, levantou-se talvez para se esticar, talvez para pegar algo no compartimento superior. Ela para sua contagem e berra em inglês, Sente-se. Já. Não há nada para fazer de pé. Sente-se. Não haviam interjeições, por favores ou obrigados. E eu enfiei minha cara na revista de bordo.

À espera do embarque no portão do Aeroporto Otopeni, eu observava o povo na fila. De repente, vi uma velhinha e imediatamente me veio à cabeça: é a mãe do Borat. Inventei para mim mesmo uma história: era a primeira vez que ela viajava de avião, a primeira vez que havia saído de seu vilarejo perdido nos Balcãs para ver in loco o que o seu padre cristão ortodoxo contava nas missas. Usava um lenço florido na cabeça com um nó sob o queixo do rosto enrugado. Corpo empertigado. Sem sorrisos. Seu casaco era pesado e tinha uma espécie de pele animal na gola, punhos e nas beiradas. O animal abatido devia ter sido um camelo, possivelmente sujo. E eu pensei, sou um cara de sorte - ela vai se sentar ao meu lado.

Embarquei para o trecho final da minha primeira viagem para o Oriente Médio e fiquei procurando o meu assento - corredor, comme d'habitude - e a mãe do Borat. Quando o localizei, a mãe do Borat não estava ao lado. Ops! Mas havia alguém sentado no meu assento. Ops, ops! A mãe do Borat estava ao meu lado; só que do outro lado do corredor. Cara de sorte... Quando provei que o assento do corredor era o meu, a dama que havia incorretamente o tomado teve um acesso de claustrofobia. Eu, compreensivo e tranquilizador, disse-lhe que daria o assento do corredor desde que ninguém se sentasse na janela - sim, porque também sou claustrofóbico. Mas o vôo estava lotado e o dono do assento da janela - que depois comprovou ser um elemento roncador - chegou. Portanto, sorry mas eu ficarei aqui mesmo, e apesar da mãe do Borat. A propósito, foi só o avião levantar vôo e o acesso de claustrofobia dela desapareceu como por encanto. Engraçadinha.

Enfiei minha cara na revista de bordo novamente. Já havia quase decorado os artigos desinteressantes escritos com inglês duvidoso. De repente, a manga da minha camisa é puxada. Pensei, What kind of fuckery is this? Era a mãe do Borat. Cara de sorte. Ela falava comigo possivelmente em romeno e eu fiz minha cara de pontodeinterrogação. Ela continuou até que me mostrou o cinto de segurança que não conseguia atarrachar. E lá fui eu explicar via sinais até que desisti e fechei-o eu mesmo para ela. E ela ficou quietinha até que chegaram os passageiros que sentariam ao lado dela. E ela não sabia mais como abrir a fivela do cinto de segurança e a confusão formou-se. Até que uma comissária, grosseira, chegou, possivelmente a xingou e a livrou do seu cinto. Enfiei minha cara na revista de bordo novamente.

O avião estava taxiando. E eu ouvia um cochicho, um sussurro, um shshsh incessante. Levantei a cara da revista de bordo e me aventurei a olhar para o lado. Mamãe de Borat tinha sua mão direita sobre o assento da frente. Sua mão esquerda estava sobre o pulso e ela estava inclinada com os olhos fechados. Assumi que estava orando. Confirmei só numa segunda olhada de soslaio - ela usava uma pulseira com ícones diversos que ela dedilhava mas, quando chegava a um crucifixo, ela parava e dava três beijinhos devotos na cruz. E lá foi ela shshsh-ando até que atingimos a altitude de cruzeiro. OK, reza de mãe de Borat tem poder.

Depois do jantar servido e os restos, recolhidos, a comissária passou por mim com alguns cobertores. Em seguida, minha manga foi puxada. E novamente, a conversa ininteligível recomeçou. Chamei a comissária e, mal abri a boca e ouvi um aqueleseramosúltimoscobertoresquesobraramdaclasseexecutivaenãotenhomaisnenhum sem pausa para respiração. E eu, com o meu melhor e mais polido inglês, sorry for the misunderstanding, it seems that this lady by my side needs some help but I regret not to speak her language. Momento saia justa, como eu quis. Elas se conversaram secamente e a comissária se foi - nunca soube do que se tratou e tenho até medo de saber.

O avião manteve-se no alto até que o comandante avisou que estávamos nos aproximando de Tel Aviv. E a mãe de Borat recomeçou suas preces. Exatamente como quando levantamos vôo. E aterrisamos suavemente no Ben Gurion. Novamente pensei, reza de mãe de Borat tem poder.

Uma semana depois, eu, cansado depois de ficar quase 2 horas numa fila zoneada para entrar onde Jesus foi sepultado e só poder ficar lá por menos de 1 minuto, sentei-me nas escadas em frente à Igreja do Santo Sepulcro. Minha lombar doía e aquela escada era uma benção. Juntei-me às outras pessoas que faziam o mesmo e observávamos o enorme fluxo de turistas alheios ao conflito judeusversusmuçulmanos. Abri o meu livro guia e o folheei para passar o tempo. De repente, alguém aproveitou o espaço ao meu lado e se sentou. Era uma senhora que... Ops eu já vi esta pulseira antes... ops... é a mãe do Borat!

5 comentários:

Louise disse...

ai, que delícia de história, Caco!!
bjs!

Cler disse...

Acontecimento interessante! Abraços!!

Flavia Melissa disse...

ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh eu amo quando vc escreve coisas looooooongas...

sabe que me vi muito na sua situação quando estava na China. Do mesmo jeito que por mais macho que seja qualquer homem falando francês me parece ser gay, todo chinês falando parece que está me dando uma bronca!

Escreve mais, Caquinho!
Beijos

Giovanna Vilela disse...

Que ótima esta. Espero que ela tenha rezado de novo.

Caco disse...

E tudo que escrevi é de verdade. Believe it or not.

PS.: Flavinha, eu falo francês. Portanto acho que vou soar meio gay para você HAHUAHA. Chinês sempre me soa sem cerimônia. Japonês me soa de uma formalidade e reverência absolutas. E francês, me soa sempre hesitante.

Beijos.