segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Água de se banhar

Israel é um país seco, árido, duro, quente. Paradoxalmente, o que eu mais gostei lá foi a água para se banhar.

Primeiro, o Mar Mediterrâneo que lambe as praias calmas de Tel Aviv e enche de um azul mezzo salgado o horizonte. Orna a atmosfera quase sufocante do balneário e permite ao povo, jovem, que desfile com o despojamento característico das cidades costeiras. Camiseta, bermudas, chinelos. Sensualidade exaurida pelos poros. Afinal , já se diz, in Tel Aviv we play - in Jerusalem we pray.

A segunda fonte de água foi o Mar da Galiléia, palco de vários feitos de Jesus - o milagre da multiplicação dos pães e peixes, bem como andar sobre as suas águas. Embora tenha tentado, só me foi possível mergulhar e nadar para lá e para cá. É um Mar de água doce - na verdade, um grande lago. Águas mornas, doces, de transparência moderada. E eu ficava olhando abestalhado as colinas de Golan, território sírio ocupado por Israel com seus assentamentos e imaginando aqueles vilarejos secos de gente seca e dura que um dia pararam para ouvir o Homem. Eu mesmo tinha acabado de comer um peixinho frito: o peixe de São Pedro, ou a nossa famosa tilápia. Trouxe umas conchas da beira do mar, deste mar especial, souvenirs que vale muito.

A terceira presença marcante da água foi no Rio Jordão. Ali, João Batista batizou o Homem. Na verdade, o local do batismo não é acessível. Resta uma grande comoção entre aqueles que vão àquelas margens banhar-se, batizar-se. Não, confesso que não o fiz. Foi-me suficiente molhar a minha mão e me benzer. A comoção era grande demais para mim: gente chorando, gente vestida com túnicas brancas, gente mergulhando, padres, pastores. Lembrou-me a cena no Rio Jordão no A última tentação de Cristo. Recolhi-me.

Finalmente, o Mar Morto. Nenhuma descrição fará justiça a o que o lugar realmente é. Passamos por ele enquanto íamos às ruínas de Masada. Todo aquele azul era doloroso e fazia contraponto à secura do entorno. Seguíamos numa espiral descendente desde que havíamos saído de Jerusalém. Desce, desce, desce até os fatídicos 422 metros abaixo do nível do Mar. Primeira sensação, a água é macia dada a sua concentração altíssima de sais.

Recebemos instruções clara de como comportar-se quando dentro d'água - não molhar o rosto, não deixar cair água nos olhos, não nadar com a barriga para baixo. Apesar de contrariado pela lista de itens começando com não, obedeci, mas não sem antes reparar num grupo de indianas que ignoraram completamente estas regras e pareciam se divertir bem mais (com exceção daquelas que saíam amparadas da água porque seus olhos estavam queimando).

Todos dizem que tudo bóia no Mar Morto. E dão risadas por associações escatológicas. E eu confirmo tudo. É uma sensação bizarra, fora deste mundo. Erga as pernas um pouco e logo elas estarão flutuando sem qualquer tipo de esforço. Move-se para lá e para cá e o empuxo é violento. Demora-se um pouco a habituar-se com aquela sensação. Sensação de gravidade zero onde a pressão atmosférica é a mais alta do planeta.

E tudo é água. Em meio à vasta secura, tudo é um pouco de emoção.

4 comentários:

Milena Magalhães disse...

Putz, deve ter sido uma viagem maravilhosa! Feliz por você.

Um abraço.

Cler disse...

Viagem maravilhosa, não pude deixar de escrever!!!! Que sensação deve ter tido!!! Bj

Flavia Melissa disse...

caco, me explica o que você foi fazer lá?

Caco disse...

Flavinha, fui lá conhecer, nunca tinha ido lá e surgiu a oportunidade. Tudo conspirou para que eu fosse. Que fazer, então?