terça-feira, 31 de agosto de 2010

O charme da curiosidade provocada

Porque seus olhos são muito juntos. Quando escutei isto fiz a minha cara de ponto de interrogação. E exclamação, em seguida. Senti-me aliviado por não ser o único a se sentir incomodado com esta característica física. O meu senso de proporcionalidade e alinhamento é apurado. O que outros acham engraçado e não sabem bem porque acham estranho, eu converto em centímetros, polegadas ou pés. Olhos muito juntos ou eyes too close together. Uns dizem que significa que não podem ser confiados, outros, sinal de pouca inteligência. A mim, eles conferem o charme da curiosidade provocada. E uma anotação no meu caderninho para daí um dia consolidar o padrão de ocorrência. Olhos muito próximos significa...

domingo, 29 de agosto de 2010

Conversa que nunca existiu

Há aqueles que foram criados pelos avós. Em geral, lembram-me Norman Bates. Podem usar cardigans, combinam a calçacamisacintosapato e os óculos, estes parecem ter saído de algum túnel do tempo. Poderiam ser trendy, mas são freaky. Eu não conheci meus avós. Nenhum deles. Morreram antes de eu nascer ou viviam longe o suficiente para que não tivesse havido oportunidade de nos conhecer antes de morrer. Durante muito tempo, achei avós uma entidade, nunca compreendi muito bem do que se tratava, e que talvez só existisse em outras famílias. Se senti falta? Honestamente, não. Como sentir falta de algo que nunca tive ou precisei ter? Já tinha uma família grande demais que preenchia com sobra este vazio. Mas um dia me deparei conversando com um avô que nunca conheci. O nome dele era Leandro. Só devia falar castelhano porque era uruguaio. Talvez estatura mediana, um nariz aquilino e queixo pronunciado. Devia ser daqueles clarosqueimadosdesol porque trabalhava no campo. Um bigode estreito bem aparado. Magro de ruim porque era forte e comia muita carne. Com vitalidade, mas não enérgico. Fumante, de cigarro de palha. Os cabelos eram bem lisos e castanhos. Descrevo assim porque existe uma linha comum entre primos e um dos meus irmãos - não eu, eu não o puxei. Há um neto de cada um dos seus filhos que herdou estas características - chega a ser quase assustadoramente resultado de experiência genética hitlerista. Mas enfim a conversa era de uma criança com um venerável senhor idoso. Altivo, porém mais bem mais velho. Que queria mostrar as ovelhas a serem tosqueadas e caminhar pela estrada até onde a vista alcança.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O feio de jóias


The summer of 1974 was brutally hot in New York and I kept thinking about how nice and icy it must be at the North Pole. And then I thought, "Wait a second, why not go?" You know, like in cartoons where they hang going to the North Pole on their door knobs and they just take off.

So I spent a couple of weeks preparing for the trip, getting a hatchet, a huge backpack, maps, knives, sleeping bags, lures and a three month supply of Banic, a versatile high-protein paste that can be made into flat bread, biscuits or cereal.

Now I had decided to hitch hike and one day I just walked out onto Austin Street, weighing down seventy pounds of gear, and stuck out my thumb. "Going North?" I asked the driver as I struggled into a station wagon.

After I got out of New York, most of the rides were trucks until I reached the Hudson Bay and began to hitch in small male planes. The pilots were usually guys who'd gone to Canada to avoid the draft or else embittered Vietnam vets who never wanted to go home again. Either way they always wanted to show off a few of their stunts. We'd go swooping along the rivers doing loop do loops and baby hueys. And they'd drop me off at an airstrip. "There'll be another plane by here couple of weeks... See ya... Good luck."

I never did make it all the way to the geographic pole; it turned out to be a restricted area and no one was allowed to fly in or even over it. I did get within a few miles of the magnetic pole though. So it was't really that disappointing. I entertained myself in the evenings, cooking or smoking, and watching the blazing light of the huge Canadian sunsets as they turned the lake into fire.

Later I lay on by back, looking up at the Northern lights and imagining there'd been a nuclear holocaust and that I was the only human being left in all of North America and what would I do then.

And then, when these lights went out, I stretched out on the ground, watching the stars as they turned around and their enormous silent.

I finally decided to turn back because of my hatchet. I's been chopping some wood and the hatchet flew out of my hand on the upswing. And I did what you should never do when this happens: I looked up to see where it had gone and it came down "fffooo" just missing my head and I thought, "My God! I could be working around here with a hatchet embedded in my skull and I'm ten miles from the airstrip. And nobody in the whole world knows where I am."

Daddy Daddy, it was just like you said
Now that the living outnumber the dead
Where I come from it's a long thin thread
Across an ocean. Down a river of red
Now that the living outnumber the dead
Speak my language

(The Geographic North Pole, Laurie Anderson; The Ugly One with the Jewels, 1995)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Religiosa e fervorosamente

Eu costumo conversar com as pessoas e elas pensam que sou um bom ouvinte enquanto eu penso que não tenho uma história melhor para entretê-las. E me calo. Num dia ouvi os anos se passaram mas ainda fantasio se ele ainda pensa em mim, se ainda pensa em mim todos os dias, religiosamente, fervorosamente, viciadamente. Não me canso de me surpreender com a ingenuidade das pessoas. Nestes momentos, repentinamente, a minha mais fria aproximação se ergue e digo certamente que não. A obviedade choca. Tento ajudar a recuperarem a respiração naquele confessionário improvisado. Sempre achei bizarro que as pessoas esperem respostas prontas, quase previamente combinadas, sobre suas mazelas.

domingo, 8 de agosto de 2010

Tapa na pantera

Procurar por:

Aproximei-me da prateleira. Passei por ela. Caminhei rápido e não olhei para ela na volta. Posterguei. Até que, antes de apagar as luzes, separei os escritos. Eram ou foram escritos formidáveis a seu tempo. Mas tive receio de relê-los por causa da dor e sofrimento que os inspiraram. Ainda estão na sua forma bruta e não se tornaram construtivos ainda. São muito mais retratos de época do que lembranças. Sim, porque o tempo ameniza as lembranças que faz sobreviver apenas as melhores. Procuro por uma resposta específica que sei que está lá em uma das folhas e não há um search para eu clicar e me livrar da dor.

Na madrugada fria de agosto

Refastelou-se no bar. Deu risadas e jogou sua cabeça para trás. Olhou para alguém localizado às 03:00. Conversou com o da esquerda e a da direita. Bebericou bebeu experimentou do copo de alguém. Petiscou com palitos com garfos com as mãos. A conta seria por sua conta, após alguns protestos. Bateu com a mão no bolso de trás do jeans. Bolso da direita. Da esquerda. Frente direita e frente esquerda. Nada além das chaves do carro e umas moedas no bolso de moedas que nem havia vasculhado. Bloody hell Havia esquecido perdido a carteira em algum canto. Sentou-se e pediu mais uma rodada. Que seguiu-se a outra. E deu aquela vontade de um desespero urgente de ir ao banheiro. Acordou na madrugada fria, colocou seu chinelo e foi até o banheiro. Na volta, aninhou-se sob as cobertas na esperança de encontrar a carteira e honrar a dívida contraída no sonho. Pelo menos rendeu uns chopps a mais.

sábado, 7 de agosto de 2010

Na sua cara


Morrissey é o artista que melhor inventa títulos para suas canções. Aqueles títulos enormes, habitualmente irônicos, que nos deixa com meio sorriso no final. Renato Russo também tinha a mesma linhagem. Por vezes, é um tapa na cara, outra vezes é um escárnio absoluto pela raça humana, apertando o dedo dolorido e esfregando na nossa cara os nossos sentimentos mais escondidos. Porque eles são intuitivos embora socialmente indesejáveis. Existem algumas pessoas que ousam usar este fato. Algumas de uma forma construtivamente criativa. Outras, no lado negro da força, transformando em verdade o texto da foto acima.


Riviera. Biarritz. Léman.

Comprei a última participação disponível no bolão. Forçosamente, por certo, já que não suportaria ser o único na repartição a ficar depois que todos os demais pedissem a exoneração e fossem curtir a vida na boréstia. Passei o resto dia divagandodivagando. O que fazer. Riviera. Biarritz. Lac Léman. Bebendo alguma coisa numa espriguiçadeira sob o sol ao lado de alguma piscina localizada a poucos metros de um espelho d'água natural. Podia até sentir o corpo se aquecendo e a claridade diminuir pelo efeito das lentes wayfarer. Até que alguém disse, 'ei - mexe o mouse'. E foi a fração de segundo em que voltei à excruciante realidade e dei uma risada. Riviera. Biarritz. Léman. Com um bolão?

Mensagem de ausência temporária

O relógio despertou e você esqueceu de se levantar. Chegou atrasado ao trabalho com o cabelo desgrenhado. A camisa estava assimetricamente abotoada. Apesar de avisado pela recepcionista, você teve que passar no banheiro para colocar os botões nas devidas casas e isto te fez chegar na reunião já pela metade, sob os olhares de reprovação dos demais. O computador deu tilt, o relatório não ficou pronto a tempo, a bateria do celular descarregou no início da tarde. Tomou a decisão errada. Foi criticado pelos corredores. A popularidade entrou em baixa. A fofoca correu solta. Apelou. Mandou um email para anjo da guarda. Recebeu um de volta: Out-of-the office reply. Your guardian angel is out of the office on holiday. Sorry but I will have limited access to my emails. This message will not be automatically forwarded to any other angel. In case of urgent matters, pray twice and go to church. I will be back to you as soon as possible. Thanks and regards. Good luck.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Aceite de convites

Já contei como eu adoro o Encantador de Cães? Basicamente eu adoro cães, mas meu estilo de vida me impede de ter um neste momento. Não poderia simplesmente ter um e garantir uma vida miserável a ele, trancado num apartamento sem a presença humana na maior parte do tempo. Mas o que eu gosto no Cesar Milan é como ele mostra como o problema de um cão estressado, latindo todo o tempo, mal comportado, é simplesmente os donos. Donos ansiosos, frustrados, estressados, transmitem esta energia para os cães. Daí o comportamento irriquieto é apenas um reflexo desta vida irritadiça. Cães vivem no agora, sem referir-se a um passado, sem antecipar um futuro - muito diferente de nós humanos. E o quanto isto pode ser levado para o comportamento humano? O quanto criamos de energia esquisita para nossos próximos? O quanto aceitamos os convites para entrar numa vibe incontrolavelmente ruim? Da próxima vez, lembre-se disto, não grite com alguém que já está gritando, não tente convencer ninguém no grito. Isto é só um exercício de mau comportamento.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fake it

Equação: a habilidade é igual ao talento vezes o exercício. Se te sobra talento, não precisa exercitar exageradamente porque a habilidade vai sobrar. Usando exemplos futebolísticos, vide Romário e Ronaldinho. Agora, se te falta talento, só te resta exercitar. Exercitar. Exercitar. Repetir à exaustão. Fingir a naturalidade de exercer uma habilidade que não lhe é natural, com sprezzatura. Fake it till you make it.