sábado, 13 de março de 2010

Minha vida com um cão

Primeiro foi o Rex, que ficou na memória através de fotografias. Acinzentado, ele aparecia sempre embaixo das mesas. Devo ter aprendido a falar seu nome de tanto ouvir os outros o chamando. Não sei que fim teve. Num hiato de tempo, apareceu o Marrom. Engraçado ter uma cor como nome. Mas o que fazer quando seu corpo branco é coberto por manchas indeléveis marrons? Torna-se Marrom, o marronzinho. Rei da casa, tornou-se arredio quando seu trono foi ameaçado e finalmente tomado pelo Lobo. Este era um malandro, filho de um Lord e de uma vagabunda, mas foi querido por todos durante seu reinado. Marrom foi tornando-se intratável e sua antissociabilidade doentia ficou insustentável na casa. O coup d'État foi implacável e levou-o à morte por pena capital. Lobo tornou-se então único e sem rivais de direito ou de fato. Seu fim entretanto foi shakespeareano: envenenado na sua gana e pela displicência da sua Corte. Tentativas de reanimação foram penosas e ineficazes. Triste fim, triste fim. Ficamos todos consideravelmente abalados por algum tempo. Muito mudou quando a era Collor se instalou e chegou o Marajá. Como seu nome diz, ele tinha pompa e circunstância, mas que era um grande e sonoro falastrão sob seu manto cor de canela da Índia. Sua Exaltada Alteza viveu conosco por pouco tempo. Devido ao nosso sangue cigano, estávamos constantemente nos deslocando então. Deslocar um Marajá e seu séquito elefantes carruagens tigres de Bengala era extremamente extenuante - estava drenando nossas limitadíssimas reservas parcialmente confiscadas pela Zélia. Daí, ele foi deposto e enviado para um merecido exílio luxuoso no campo. Embora avesso às atividades do campesinato, foi treinado por um tutor habilitado e tornou-se exímio soldado, guardando um império dentro da cidade maravilhosa.

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