sexta-feira, 26 de março de 2010

Da melancolia fotográfica

É que eu sofro desta melancolia fotográfica.

Uma senhora passa pela rua com seu guarda-chuvas e carregando uma sacola pesada no braço. Seu andar é lento cuidadoso não se deixar cair no piso escorregadio. Congelo a imagem e fantasio tudo o que ela pode estar passando. Como a velhinha de LDN que carrega suas sacolas de supermercado até que é brutalmente atingida na cabeça para ter suas jóias e carteira roubadas, ela pode estar voltando para sua casa depois de um dia estafante de faxina para complementar sua aposentadoria. Ou qualquer outra coisa igualmente triste para alguém de sua idade. Qualquer outra coisa que ela não mereceria estar passando.

E eu me deixo levar por esta tristeza momentânea.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Delírio em amarelo

Acordei e olhei pela janela do avião. Há quanto tempo havia dormido? Desde a decolagem? O sol do meio-dia no mormaço espanhol garantia um brilho embaçado e plastificado. Cerrei os olhos enquanto tateava meus pertences à procura dos meus óculos escuros. Tive vontade de voltar a dormir mas fiquei num estado de torpor observando a meseta espanhola. Um grande jogo de xadrez das propriedades quadradas de diferentes cores de dourado de trigo. Deveriam ser colhidos logo mas estavam em graus de maturidade ligeiramente diferentes. E os fazendeiros teriam muita dificuldade em separá-los, se quisessem. Mas precisariam ser separados, para o bem do seu futuro, da sua evolução. E a mágica, eu pensei, deve ser coexistir. Deve ser perder um pouco daquiedali. Em pensar que tudo aquilo estava verde há alguns meses. Agora tudo estava prestes a ser ceifado. O amarelo de Van Gogh sempre me fez delirar.

terça-feira, 23 de março de 2010

G.U.T.

Existem vários tipos de problemas. Os graves variam entre aqueles sem qualquer importância até aqueles de consequências tenebrosas. As urgências estabelecem o ritmo com o qual devemos tratá-los para restabelecer certa normalidade. Mais negligenciada, a tendência deve também ser observada. Ela indica o que pode acontecer se não fizermos absolutamente nada - ficarmos quietin' quietin'. Por vezes, a situação se deteriorá rápida e incontrolavelmente. Outras vezes, nada acontece ou, quiçá, as coisas até se resolvem por si só. Pois bem, após anos lutando com uma restrição legal, já havia praticamente desistido de resolver esta equação impossível. Na última tentativa, rondava a mesa de discussões a possibilidade de ser processado pelo fato de estar não conforme. Mas aí aparece uma Erin Brockovich que vai fuçar um detalhe da lei que desconhecia. E, eis que ela descobre que, no apagar das luzes de 2009, a lei foi revogada. Voilà: nada foi feito e o problema se foi.

Com mais delongas #2

"Procrastination is like masturbation. At first it feels good, but in the end you're only screwing yourself. "
Autor desconhecido.

domingo, 21 de março de 2010

Um campeão aos 50

Créditos: Art by Terra
Senna, se tivesse chegado aos cinquenta.
O cara era muito foda.

sábado, 20 de março de 2010

Somente duas alternativas

Olhava nos seus olhos pelo espelho. Respirei fundo e tomei coragem. Titubeei nas primeiras palavras que saíram. Era a minha deixa de hesitação e de demonstração do quanto delicado o assunto era. Continuei. Repetiria tudo de novo assim mesmo, como um pleonasmo propositado repetiria tudo de novo para ser mais amada, admirada, aceita? Seus ombros caíram num instante e formou-se uma linha na testa, Sim possivelmente. E, embora soubesse que aquela pergunta teria apenas 2 respostas possíveis - sim ou não - me perguntei porque não consegui desenvolver a conversa.

Por poder tornar-se realidade,

sexta-feira, 19 de março de 2010

The Cultural Ambassador

Clique no Play:



Anyway, I was in Israel as a kind of cultural ambassador and there were lots of press conferences scheduled around the performances. The journalists usually started things off by asking about the avant-garde.

— So, what's so good about new? they'd ask.
— Well, new is… interesting.
— And what, they would say, is so good about interesting?
— Well, interesting is, you know… it's… interesting. It's like… being awake, you know, I'm treading water now.
— And what is so good about being awake? they'd say.

Finally I got the hang of this: never answer a question in Israel, always answer by asking another question. But the Israelis were very curious about the Gulf War and what Americans had thought about it, and I tried to think of a good question to ask and answer to this, but what was really on my mind was that the week before I had myself been testing explosives in a parking lot in Tel Aviv. Now this happened because I had brought some small stage bombs to Israel as props for this performance and the Israeli promoter was very interested in them. And it turned out that he was on weekend duty on one of the bomb squads, and bombs were also something of a hobby during the week. So I said:

— Look, you know, these bombs are nothing special, just, just a little smoke.
And he said:
— Well, we can get much better things for you.
And I said:
— No really, these are fine…
And he said:
— No but it should be big, theatrical. It should make an impression, I mean you really just the right bomb.

And so one morning he arranged to have about fifty small bombs delivered to a parking lot, and since he looked on it as a sort of special surprise favor, I couldn't really refuse, so we are on this parking lot testing the bombs, and after the first few explosions, I found I was really getting pretty… interested.

They all had very different characteristics: some had fiery orange tails, and made these low paah, paah, paah, popping sound; others exploded mid-air and left long smoky, slinky trails, and he had several of each kind in case I needed to review them all at the end, and I'm thinking:

— Here I am, a citizen of the world's largest arms supplier, setting off bombs with the world's second largest arms customer, and I'm having a great time!

So even though the diplomatic part of the trip wasn't going so well, at least I was getting some instruction in terrorism. And it reminded me of something in a book by Dan Delittle about how terrorists are the only true artists left, because they're the only ones who are still capable of really surprising people. And the other thing it reminded me of, were all the attempts during the Gulf War to outwit the terrorists, and I especially remember an interesting list of tips devised by the US embassy in Madrid, and these tips were designed for Americans who found themselves in war-time airports. The idea was not to call ourselves to the attention of the numerous foreign terrorists who were presumably lurking all over the terminal, so the embassy tips were a list of mostly don'ts. Things like: don't wear a baseball cap; don't wear a sweat shirt with the name of an American university on it; don't wear Timberlands with no socks; don't chew gum; don't yell “Ethel, our plane is leaving!" I mean it's weird when your entire culture can be summed up in eight giveaway characteristics.

And during the Gulf War I was traveling around Europe with a lot of equipment, and all the airports were full of security guards who would suddenly point to a suitcase and start yelling:

— Whose bag is this? I wanna know right now who owns this bag.

And huge groups of passengers would start fanning from the bag, just running around in circles like a Skud missile on its way in, and I was carrying a lot of electronics so I had to keep unpacking everything and plugging it in and demonstrating how it all worked, and I guessed I did seem a little fishy - a lot of this stuff wakes up displaying LED program readouts that have names like Adam Smasher, and so it took a while to convince them that they weren't some kind of espionage system. So I've done quite a few of these sort of impromptu new music concerts for small groups of detectives and customs agents and I'd have to keep setting all this stuff up and they'd listen for a while and they'd say:

— So uh, what's this?
And I'd pull out something like this filter and say:
— Now this is what I'd like to think of as the voice of Authority.
And it would take me a while to tell them how I used it for songs that were, you know, about various forms of control, and they would say:
— Now, why would you want to talk like that?
And I'd look around at the Swat teams and the undercover agents and the dogs and the radio in the corner, tuned to the Superbowl coverage of the war. And I'd say:
— Take a wild guess.

Finally of course, I got through, with this after all American-made equipment, and the customs agents were all talking about the effectiveness, no the beauty, the elegance, of the American strategy of pinpoint bombing. The high tech surgical approach, which was being reported on CNN as something between grand opera and the Superbowl, like the first reports before the blackout when TV was live and everything was heightened, and it was so… euphoric.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Leite, torrada e mel

Comprou o pão mas deixou o troco na padaria. Beliscou o bico dele no caminho para o carro. Sentou e deu a partida. Seta piscando. CDplayer tocando. Milk toast and honey. Deliciosamente piegas, pensou e riu para si, por que ainda estou ouvindo isso? Deve ser porque eles são suecos e não há nada mais bizarro do que ser sueco. Quando virou na segunda à direita, eles avisaram to bring a little lovin', honey, to take away the pain inside, is everything that matters to me, is everything I want from life.

domingo, 14 de março de 2010

Indulgência

Babette ganhou uma grana inesperada e generosamente deu um presente de agradecimento àquelas pessoas que haviam a recebido. Gente velha. Gente fechada. A abundância da generosidade transforma aquelas pessoas. Elas alimentam seus corpos e suas almas, bebem de um vinho santo, conversam, dançam e finalmente sorriem. A alegria abunda. Este é o espírito de uma festa ideal. Have more fun, people. Sem culpa (Babettes gaestebud, 1987)

sábado, 13 de março de 2010

Minha vida com um cão

Primeiro foi o Rex, que ficou na memória através de fotografias. Acinzentado, ele aparecia sempre embaixo das mesas. Devo ter aprendido a falar seu nome de tanto ouvir os outros o chamando. Não sei que fim teve. Num hiato de tempo, apareceu o Marrom. Engraçado ter uma cor como nome. Mas o que fazer quando seu corpo branco é coberto por manchas indeléveis marrons? Torna-se Marrom, o marronzinho. Rei da casa, tornou-se arredio quando seu trono foi ameaçado e finalmente tomado pelo Lobo. Este era um malandro, filho de um Lord e de uma vagabunda, mas foi querido por todos durante seu reinado. Marrom foi tornando-se intratável e sua antissociabilidade doentia ficou insustentável na casa. O coup d'État foi implacável e levou-o à morte por pena capital. Lobo tornou-se então único e sem rivais de direito ou de fato. Seu fim entretanto foi shakespeareano: envenenado na sua gana e pela displicência da sua Corte. Tentativas de reanimação foram penosas e ineficazes. Triste fim, triste fim. Ficamos todos consideravelmente abalados por algum tempo. Muito mudou quando a era Collor se instalou e chegou o Marajá. Como seu nome diz, ele tinha pompa e circunstância, mas que era um grande e sonoro falastrão sob seu manto cor de canela da Índia. Sua Exaltada Alteza viveu conosco por pouco tempo. Devido ao nosso sangue cigano, estávamos constantemente nos deslocando então. Deslocar um Marajá e seu séquito elefantes carruagens tigres de Bengala era extremamente extenuante - estava drenando nossas limitadíssimas reservas parcialmente confiscadas pela Zélia. Daí, ele foi deposto e enviado para um merecido exílio luxuoso no campo. Embora avesso às atividades do campesinato, foi treinado por um tutor habilitado e tornou-se exímio soldado, guardando um império dentro da cidade maravilhosa.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Quinta sem lei

Eu curto quando, na cidade, dois mundos colidem. E eu curto a Adele aos montes, voz da menina fofinha que soa poderosa, profissional, uma porrada. Esta música me dá saudades de Londres.



I've been walking in the same way as I did: missing out the cracks in the pavement and tutting my heel and strutting my feet. "Is there anything I can do for you dear? Is there anyone I can call?" "No and thank you, please Madam. I ain't lost, just wandering". Round my hometown, memories are fresh, round my hometown. Ooh the people I've met are the wonders of my world, are the wonders of this world. I like it in the city when the air is so thick and opaque. I love to see everybody in short skirts, shorts and shades. I like it in the city when two worlds collide. You get the people and the government: everybody taking different sides. Shows that we ain't gonna stand shit, shows that we are united, shows that we ain't gonna take it, shows that we ain't gonna stand shit, shows that we are united. Round my hometown, memories are fresh, round my hometown. Ooh the people I've met are the wonders of my world, are the wonders of this world.