domingo, 31 de janeiro de 2010

Só porque ele é muito bacana

Jesus toma conta

Um dia ele decidiu. Não mais. Numa fração de segundo percebeu que não havia mais sentido procurar o sentido único. Desligou-se e relaxou. Era algo como um anestésico, talvez até mesmo uma droga, só que totalmente legal, em todos os sentidos. Não enxergava mais soluções ou possibilidades e cansou de procurar. Poderia gastar mais tempo ou mesmo preocupar-se por não ter conseguido. Era o medo de falhar e ser humilhado. A frase que resumiu tudo foi agora só me resta entregar a Deus. Falou isto com um certo humor, abriu um sorriso, fechou os olhos e dormiu. E foi o que fez. E tudo deu certo, no final.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Das verdades

Profira uma frase.

Haverão tantas interpretações para o mesmo conjunto de palavras quanto ouvintes em torno. Cada um destes indivíduos constituirá daí uma verdade absoluta para o que tiver ouvido. Esta verdade será baseada na sua imaginação, história, preconceitos, experiência pessoal e, por sorte, nas palavras ditas. Como assim se pode definir uma verdade? Ou ela não existe? Ou será tudo uma grande mentira? Ou existe apenas uma verdade coletiva que eu nem sei qual pode ser? Respostas, por favor, nos comentários.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Como ser popular

A cena que mais me faz rir no segundo filme da família Addams é quando Wednesday (Wandinha) sai de uma sessão de rehab de numa cabine do camping. O rehab era, na verdade, uma tentativa para que ela ficasse normal - sorridente e popular, praticamente uma cheerleader. Depois de assistir a uma maratona de filmes tipo Bambi, Lassie, A Pequena Sereia e similares, ela emerge da cabine e sorri. Se inicialmente forçado, o sorriso torna-se cândido. Os incautos ficam satisfeitos com os resultados. Os mais sensíveis sabiam o que estava por trás daquilo. A cena está aqui:



Meus últimos sorrisos estão similares.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Domingo preguiçoso

Toda esta chuva de janeiro vai deixar mais verdejantes estes pastos do sul do Brasil. E mais verdes e fungados, o conteúdo dos meus armários. O vento que sopra lá fora faz a cobertura do ar condicionado do prédio vizinho bater sonoramente, impedindo o sono dos justos. A chuva de chumbo combina com a Suzanne Vega tocando no player, trilha sonora de domingo preguiçoso. Minhas revistas não lidas se acumulam sobre o sofá. E ideias vão e vem. O bichinho do empreendedor me mordeu e fico sonhando com negócios negócios negócios. O café o leite e pão parecem mais lentos quando não se há nada por fazer. Sentimentos passam pela minha frente como páginas de um livro, preocupações, resoluções, tristezas, saudades. Até que eu fechei a torneira da pia ao acabar de lavar a louça do cafédamanhã.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Devo pintar o quadro?

Most important decisions in life are made between two people in bed. O abajur estava ligado e o quarto, à meia luz. Cada um no seu travesseiro, se olhavam. Até que uma voz saiu, você seria capaz de matar alguém? A resposta veio no segundo seguinte, sim. A vontade de chocar foi bem sucedida: o susto era patente na fronte do interlocutor. Mas, adicionou, nunca por um motivo fútil, nunca por diversão, nunca por esporte. Explicou que seria apenas para garantir sobrevivência. Um suspiro aliviado pôde ser ouvido caso fosse um voyeur com bons ouvidos. Uma sensação de orgulho instintivo, primal até, pairou entre aquelas duas pessoas. Sentiram-se vivas e humanas. Desligaram o abajur. Fecharam os olhos.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Q & A

Q: Tudo bem?
A: Até agora, tudo.

Já achei este diálogo risível no passado. Ele era acompanhado de caras engraçadas e estórias tragicômicas. Hoje me enche de uma certa tristeza. Então querem me convencer que a desgraça é iminente? Toda a alegria, felicidade, sucesso, saúde se autodestruirão em 10 segundos. 10, 9, 8,... Pergunto-me se é assim mesmo, se estamos sempre flertando com desastre, e acho que não. Não. Não pode ser assim, não pode ser esta a nossa verdade. A desgraça, ah ela é randomica - isto é, caso não estejamos fazendo algo que claramente nos encaminhe nesta direção. Então, por que estar feliz poderia causar a imediata posterior infelicidade? A alegria é inebriante e deveríamos também aí adotar a Lei Seca da Felicidade e ficarmos permanentemente casmurros por receio de sermos autuadosmultadospresos? Respostas para a redação. Talvez perigosamente desafie o Tao, o conceito da mutação eterna, o Yin e Yang. Mas troco o desafio pelo respeito e a compreensão. Deixo de olhar melancolicamente o passado ou ansiosamente o futuro e resido nesta fração do tempo que é o agora.

A: Sim, tudo bem.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Nuca suada

A temperatura subiu durante a madrugada. Acordei, passei a mão na nuca: úmida. Sempre havia pensado que temperaturas caíssem durante a madrugada. Um copo d'água foi suficiente para me fazer dormir novamente. Acordei com um pesado na fronte. Todos os relógios haviam ficado malucos. Cada um marcava um horário. Não, sou eu que estou ficando maluco, havia trocado a bateria de alguns deles há alguns dias. Este paradoxo do tempo me fez especular. O calor, a umidade, provém de uma fenda no tempo que nos leva a um lugar muito mais quente e abafado. E lá soprou um bafo senegalês.

Devo ter visitado o local enquanto dormia.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ofensa ambulante

Tornou-se uma ofensa ambulante. Cada palavra proferida era um desgosto para a sociedade. Achavam que faltavam-lhe mais vogais. E, se haviam vogais demais, eram certamente as consoantes. Que dizer dos numerais? Parcos. Ou excessivos, como resposta. Concisão era rispidez, prolixidade era patronising. Vestia-se desajustadamente. Não deveria estar naquela foto, não deveria estar naquela paisagem. Dêem-lhe seu perdão por ainda respirar, pratiquem um pouco de tolerância.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quinta sem lei

Assisti ao Maria Antonieta, da Coppola. Vazio, como um doce bonito, vazio, bonito de se ver. A trilha é irresistível. Fiquei com vontade de comer doce. E então, vai um doce daí?

I know a girl who's tough but sweet. She's so fine she can't be beat. She's got everything that I desire, sets the Summer sun on fire. I want Candy. Go to see her when the sun goes down. Ain't no finer girl in town. You're my girl, what the doctor ordered. So sweet, you make my mouth water. I want Candy.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Assinado, selado e entregue

O apartamento está pago, o financiamento com o banco foi quitado, a alienação fiduciária acaba de ser cancelada no cartório. Assinado, selado e entregue: ele é meu. New year's resolution, darling... to have more fun. Então comemoremos!

Überkriminell

Lendo Lolita, do Nabokov. Pomposamente escrito, está muito afastado de qualquer literatura rápida. O assunto em outras épocas poderia ser meramente escandaloso e um tanto perverso. Renderia pela extravagância do assunto. Teria sido uma visão muito peculiar da atração de um homem por meninas jovens. Mas, hoje em dia, confesso que o assunto me dá náusea. Vamos nos respeitar, não há perdão: a personagem é um pedófilo, criminoso, um tremendo filhodaputa. Eu o vejo em cada um destes que desgraçados que apareceram nas notícias - seja nestes rincões brasileiros, nos EUA ou, o überkriminell Fritzl na Áustria. Não, Lolitas não são provocações ambulantes, pedindo para serem bulinadas. Elas são crianças, na essência, e que ninguém desconfie disto. A Justiça não desconfia. Portanto aberrações, comportem-se.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Parafraseando Greenleaf

Cara, como você tá branco! Estas foi uma das primeiras frases que escutei nos primeiros dias deste fim de ano quando me despi parcialmente na praia. Na verdade, eu fico mais para amarelo flandebaunilhasemgraça do restauranteàquilo É uma sensação esquisita, dá vontade de ficar colocando os braços na frente para esconder as manchas, o bronzeado desigual, a barriga, os pelos. Até que eu olhei em volta e lá estava um monte de gente em situação idêntica. E os dias, as noites, o sol e as chuvas foram passando, e o bronzeado foi chegando aos poucos a este abençoado blogger, naturalmente dotado com boa quantidade de melanina (não melamina). Migrei da cor do Ripley para a do Greenleaf e avante (talvez Brownleaf, eu diria). Os stills são do Talented Mr Ripley durante a conversa memorável:
Dickie Greenleaf: You're so white! Have you ever seen a guy so white, Marge? Grey, actually. Tom Ripley: It's just an undercoat. Dickie Greenleaf: Say again? Tom Ripley: You know a primer. Dickie Greenleaf: That's funny. Margie likes that 'cause she's so white too. Marge Sherwood: Yes, I do and you're not funny.

Convite para 2010

O primeiro post de 2010 é um convite. No meio de tanta alegria, uma chuva cai torrencialmente, lavando todos os sentimentos desagradáveis deste ano que passou. A mesma chuva traz uma avalanche de lama horas depois, devastando esperanças e o futuro de indivíduos. A dor é repetida ad nauseum no video sem chance de nos poupar. Daí vem meu convite. Já que não há escapatória, quero convidar a todos a olhar o episódio de forma especial. Meus queridos, a vida é curta. E eu, trágico eu, acho que estão ceifando vidas só para nos confrontar com isto, crime rude do destino. Vai, aproveita a vida, não fica remoendo nada no peito porque há tantas possibilidades, oportunidades, chances, probabilidades aí na frente que ficar amuado é uma puta perda de tempo. Vi as garrafas de champagne na janela da pousada arrasada e as bolas de gás douradas ainda penduradas nas portas. Aquelas vidas, efêmeras mas só um pouco mais do que a minha a sua a nossa, estiveram ali por algumas horas e aproveitaram com força aqueles momentos. Deram risadas abraços e beijos. Viveram a plenitude. Não quero pensar na tragédia posterior. Cristalizei a alegria e as good vibes. Que tenhamos todos boas vibrações em 2010, que emanemos isto por aí. E o amanhã? Amanhã há de ser outro dia.