segunda-feira, 27 de abril de 2009

Atrás do vaso de cristal Murano

Preparei-me para ir embora. Vesti a minha jaqueta azul. Calcei o AllStar. Andei à esmo pelo apartamento vazio. Fui e voltei do quarto para cozinha duas vezes sem encontrar o que eu queria, sem saber o que eu queria. Bati com a palma da mão nos bolsos da jaqueta - me revistei - e encontrei o maço de cigarros amassado. Cazzo, acabou o cigarro. Neste instante ela entrou no apartamento e me olhou. Mantive os olhos em objetos neutros evitando o contato visual. Rasguei o maço e percebi que ainda haviam dois cigarros. Graças aos céus. Peguei um deles como se dele dependesse a minha vida e o coloquei na boca. Ela provavelmente reprovou o movimento mas nem me apercebi disto. Fósforo. Fósforo. Sim, na cozinha. Nossas figuras se cruzaram no espelho, exatamente atrás do vaso de cristal de Murano. Nossos reflexos. Movimentei o cigarro na boca e o coloquei no canto como um malandro, ela me diria. Mas ela nada falou, só deixou a sacola do supermercado na mesa e foi para o quarto. Saí da cozinha, olhei para o corredor e ainda vi a sombra dela entrando no quarto. Traguei, tirei o cigarro da boca e o olhei entre meus dedos. Dedos longos, ela me disse uma vez. Mas não desta vez. Tirei o maço de cigarros da sacola de supermercado que ela trouxe, coloquei-o na minha bolsa: no canto entre as meias, as camisetas e cuecas. E fui embora para não mais voltar.

5 comentários:

Flavia Melissa disse...

que coisa mais triste, quando se lembra de comprar cigarros mas não de dar adeus...!

milena disse...

Oi, Caco, dias desses vi várias de suas fotos no flick! Vc fotografa muito bem! Fui criando historinhas das suas viagens... E seus textos de ficÇão dos últimos posts são muito bons. Eu ainda não conhecia esta sua faceta! Bom do teu blog é isto::: nunca sabemos o que vamos encontrar!

Um abraço grande.

Caco disse...

Flavinha, dizer adeus foi algo em que a personagem não pensou. Isto a torna pior aos seus olhos ou só mais cavaleiro da triste figura ainda?

Milena, Obrigado pela visita ao Flickr e pelas palavras gentis. Diríamos que tenho olhos curiosos, que gosto de memorizar coisas interessantes para partilhar com todos. Só isso. Assim como você foi criando histórias a partir das minhas fotos, eu tenho criado estas ficções a partir de uma ou outra imagem com a qual cruzei. Nem eu sei onde elas vão dar.

Beijodaí.

Giovanna Vilela disse...

Tem tanta coisa que os objetos da nossa casa já viu, tantos sentimentos apagados como um cigarro no cinzeiro. As vezes seria melhor ser como o vaso de murano, refletir, ver e não sentir. Poucas são as pessoas,que como você, além de sentir,sabem tão bem colocar em palavras.parabéns, lindo,lindo seu texto!beijos

Raquel disse...

Olá!

Achei intenso e sensível o seu texto. Gostei muiiiito.

Obrigada pelo comentário. Fico feliz que goste do que escrevo.

Seja bem-vindo.