segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O evangelho, segundo Caco

O cara também nasceu num dia 25 lá pelos anos 70. Teve uma infância desinteressante, que ninguém se lembra muito bem. E, de qualquer jeito, hoje em dia não há muitos mais para contar muita coisa a respeito. Seus contemporâneos já morreram também ou estão presos ou se perderam talvez por este mundo. Ele conseguiu se manter limpo todo o tempo. As drogas não o tentaram. Mas quase não resistiu a uma vizinha gostosa. Ela fazia ponto na frente da boate, usava vestido curto e uma bolsa de alcinha. Todos comentam o quanto ela chorou quando ele se foi. Ele mexeu com ela. Ele afinal mudou a vida dela. Como tornou-se hábito nesta geração, até os 30 viveu com os pais. Trabalhou junto com o pai feito um condenado um burrodecarga um louco um camelonodeserto um turco um operário um cavalo um escravo um cão. Aí ele descobriu que não era filho dele. Não aguentou a barra. E pirou. Passou a escutar muito o Raulzito e aquela loucura o arrebatou. Virou profeta, ora Profeta Gentileza ora Beato Salu. Era de uma generosidade irritante do tipo que nos constrange. Ele tinha tudo para viver choramingando pela pobreza pela falta de chuva pelo ônibus cheio pela falta de fé. Mas não, não ele. A trupe que andava com ele também era meio louca: uns o adoravam, outros o seguiam por inércia e um o odiava. Um dia estava subindo o morro e foi pego no meio de um tiroteio. Ia tomar umas biritas convidado pelo por aquele amigo traíra (a mãe dele nunca tinha curtido aquela amizade). Balaperdida. Polícia, bandidagem. O disparo veio nãosesabedeonde e o pegou na cara, no olho esquerdo e se alojou no cérebro. O Delegado lavou as mãos: ele estava no lugar errado e na hora errada. Ficou em coma por três dias antes do último inaudível suspiro. Ele não tinha nem 32 anos quando isto aconteceu. Eu acho que ele era o Messias, ia ter uma vida igual ao do JC. Só que nós o queimamos antes. Cometemos o mesmo erro duas vezes. Quando será que vamos aprender?

3 comentários:

Ana R. disse...

Será que alguém está realmente interessado em aprender? Em transformar-se? O ego não deixa!

Flavia Melissa disse...

não vamos aprender nunca.
e eu me pergunto se essas histórias não acontecem só prá nos lembrar da racinha meia-boca à qual pertencemos. tipo, "se liguem seus bostas, sejam menos escrotos". mas não, a gente não aprende e não vai aprender nunca...

Caco disse...

O meu medo é que vai que o Homem voltou e a gente deu cabo dele... Beijodaí.