segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Patinando no Carrefour

Ontem ouvi o relato de uma pessoa que, quando criança, queria ser patinadora do Carrefour. Passar o dia desfilando artisticamente por uma superfície lisa e ampla com chegadas providenciais e graciosas. Eu, entre Operações Unitárias, Processos Inorgânicos e Projetos Industriais, entrava em crise usualmente nos meses de setembro e outubro quando meu nível de tolerância chegava a limites aparentemente insustentáveis na universidade. Ficava me perguntando que raios eu estava fazendo numa turma de Engenharia Química, numa tarde de calor senegalês no Rio de Janeiro. Aproveitava as janelas do horário, escapava do campus e partia pro cinema. Exilava-me naquele país escuro e com temperaturas mais amenas. Durante 5 anos, semtirarnempor, passava aqueles dois meses querendo largar tudo e fazer Cinema, Desenho Industrial, Jornalismo, ou qualquer outra coisa. Mas aí, de repente, era dezembro, era Natal, eram férias, era uma viagem, era sol e era praia. E inquietações só reapareceriam 1 ano depois. É setembro quase outubro agora e é momento de ficar de saco cheio de tudo. Ficar pensando seriamente em ser fotógrafo da NatGeo.

domingo, 28 de setembro de 2008

De doer

Esqueci a máquina fotográfica dentro da mala, trancafiada sob o códigosamsonite. Logo ela, condenada a esta existência solitária, depois de ter capturado coisas em cantos exóticos deste mundodemeudeus. Companheira de jornadas. Senti falta dela num domingo lindo. Céu azul de doer. O ipê do caminho de casa florindo, amarelo de doer. E florada de ipê é tão efêmera. Um dia, faz frio, aquele de doer, e o ipê é esmagado pelo tempo. Já seco do inverno, sem folhas, meiomorto. Espremido, ele reage. E floresce quase como um milagre aleluia. Volte para ver no dia seguinte e seu bobão não vai encontrar mais nada na árvore. Só um carpete amarelo em volta do tronco dizendo tchauatéoanoquevem. Bati instintivamente com as mãos nos bolsos da calça. Carteira. Celular. Chaves. Não, a camera não estava comigo desta vez. Vai ficar para o ano que vem. Mas vou correndo tirá-la da solitária.

No trânsito

Acelerei pela bilionésima vez na mesma rua. Nem a primeira nem a última vez. No mesmo local, obrigatoriamente. E pela bilionésima vez pensei o que poderia ter levado você para tão longe de mim. E freei antes de virar à esquerda, olhei para os lados, desviei do buraco, sinalizei para o pedestre. Voltei a acelerar. E já tinha esquecido.

sábado, 27 de setembro de 2008

RIP, Paul

Créditos: Paul Newman, desconheço o autor (Deus?)

Vou correr atrás de doces...

Suspiro, cocada, pédemoleque, doce de amendoim, doce de leite, pipoca, bolo, geléia de duas cores, balas, pirulitos, Zorro, mariamole, canudo com doce de leite, Jujuba.
Será que me esqueci de algo?
Dia de São Cosme e São Damião.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Quinta Sem Lei

Ensaio sobre a Noz

O Ensaio Sobre A Noz é um exercício fotográfico do meu olddearfriend Sr F. Coisa de gente que nasceu com um olho bom. Tão bom que é uma pena que fique escondido lá no Flickr:
http://www.flickr.com/photos/fernando_nascimento/sets/72157607210839790/

"As aparências iludem"

Eu li
e falei
caramba!

Análise crítica e ouvidos de mercador

Eu li o post que acabei de publicar. E fiquei pensando. As minhas experiências, as importantes ao menos, são tão few and far between. Tenho lacunas tão graves nesta vida que me pertence que tudo repentinamente me soou pretensioso ao extremo. Tem gente tão mu i to mais experiente de vida do que eu... Além disso, os meus momentos em que eu falofalofalo são definitivamente consideravelmente menos freqüentes do que os de absoluto silêncio. Talvez porque sei que tenho muito a aprender e fico ouvindo aqueles que têm muito mais experiência do que eu, que me oferecem atalhos, me mostram armadilhas, mas para quem, por vezes, eu insisto em fazer ouvidosdemercador.

Professor

Tenho o instinto natural de partilhar as minhas experiências com o objetivo de ajudar aqueles que ainda não passaram pelo que eu passei. Quando tropeço e caio em mim mesmo, estou falandofalandofalando. Adquiro tom professoral facilmente. É a ansiedade de ajudar os outros a não cair nas armadilhas em que já caí, de dar atalhos. Só que já aprendi que conselhos não solicitados não são bem vindos. Só que aprendi que não adianta falar, eu falofalofalo mas ninguém me escuta. Então, se precisarem de ajuda, aqui estou à disposição. Caso negativo, quesefodamtodos, digo, azar o seu. Como diz o Dr D: se me pedir ajuda, pode até receber; se não falar nada, vai ficar esperando. E tenho dito.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Jejum antes do exame de sangue

Hoje de manhã cedo o sol brilhava forte, céu azul cristalino, vento forte de uns 10°C. Andei rápido mas ouvia mentalmente a maldita música chiclete quand j'étais petit, j'étais un Jedi, tellement nerveux, que lorsqu'il pleuvait souvent je m'électrocutais e pensava se não era um absurdo se considerar que o país estivesse blindado à crise mundial. Esta fina ironia do Presidente, discursos de encorajamento ao consumo do Ministro, presidente do BC nos EUA - tudo isto me causa algum incômodo. Tinha tirado o meu cachecol de listras da caixa de mudança para usar hoje. As extremidades penduradas para fora do casaco estavam indóceis por causa do vento. O mesmo vento que teria levado qualquer um para a Terra de Oz durante a madrugada. E que fez bater a janela e me acordar às 4:30. A Bolsa tinha caído bastante desde o último teto de uns 70000. Mas não fazia sentido - o país não está indo de todo mal. Agora como fica se alguém tipo Itaú quebrar aqui ou HSBC de lá? Alcancei o protetor labial no fundo do bolso do casaco e coloquei os óculos escuros que não precisava usar na Inglaterra. Olhos irresistivelmente lacrimejantes. Pisei numa outra centopéia (ou minhocacomummontedepatas, sei lá) e pensei que matar estes adoráveis animais vai me obrigar a ter muitas outras vidas para compensar o karma um dia ainda transcendo. Se o crédito continuar tão fácil, a candangaiada vai fazer um monte de prestaçãozinha para comprar geladeira, carro, microondas, casa, batedeiraprafazerunsbolinhos. Quando o crédito apertar, empresas não investirem, e eles forem demitidos para que cortem o custo fixo, a quebradeira neste país vai ser geral. Num país real, preços cairiam. Neste país surreal, acho que desafiamos até a lei da gravidade. Pensei, só devo poder comprar meu pied-à-terre no ano que vem. Pensei, vou abrir um projeto de metas para 2009 com a equipe de P&D já em outubro. Think ahead, Marcos. Think ahead. Virei a chave na ignição. Liguei o CD Player Let's Stay Together, Tina Turner. Esfreguei as mãos e praguejei contra meus eternos cold limbs, liguei o ar quente. Estava com fome. Fui fazer o exame de sangue.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Acelerador de Partículas

Espero uma peça, talvez épica, sobre o acelerador de partículas. Se possível, composta por Laurie Anderson - que olha sempre à frente. Ou para dentro do buraco negro entre a França e a Suíça.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Post sobre a cegueira

Há muito tempo atrás dei de presente para a Srta S um exemplar do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Comprei de última hora, antes de ir encontrá-la, sem idéia na livraria, só lendo o resumo na páginadetrás, mas só mesmo porque Saramago é um desbunde. Neste fim de semana, assisti ao Blindness, do Fernando Meirelles. O filme tem alguns problemas de edição e continuidade que não podemos ignorar - ficamos por aqui e fim das críticas sobre a forma. Entretanto, não dá para passar incólume ao filme: ele causa desconforto. Vamos ao conteúdo. Não há metáforas óbvias sobre a cegueira. Os defeitos dos seres humanos independem do seu estado - e a crueldade e a insanidade fica mais intensa quando num grupo. Ser uma minoria por motivos físicos sociais mentais sexuais religiosos deixa-nos fadados ao isolamento e ao esquecimento. Neste exílio, os radicais florescem e começam ameaçando seu próprio grupo, até ameaçarem grupos maiores. E eu sempre tive um pouco de receio da coletividade. E continuo fã do Saramago.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Declaração livre dos direitos das pessoas desobrigadas da felicidade constante

Não resisti. Não sou o autor, nem sei que o é. Recebi da Srta C. Lá vai:

Declaração livre dos direitos das pessoas desobrigadas da felicidade constante

I - Toda pessoa tem o direito de errar, mesmo que já tenham explicado a ela mil vezes o certo sem que ela tenha entendido, pois o tempo de compreender e aprender é de cada um.
II - Toda pessoa tem o direito de mudar de idéia, de se contradizer, de voltar atrás, de recomeçar, pois a melhor coisa da vida é mudar, principalmente nas coisas que a gente pensava serem imutáveis.
III -Toda pessoa tem o direito de chorar, de sentir dor, de soluçar e de ficar com ar melancólico, pois o riso, muitas vezes, é falso, enganador e insano.
IV -Toda pessoa tem o direito de fazer silêncio, de calar, de não responder, de ficar quieta e não sair tagarelando, pois no silêncio estão as melhores respostas.
V -Toda pessoa tem o direito de se cansar e de ficar doente, pois o corpo, muito mais sábio que a mente, não é de ferro e sabe sinalizar a hora de parar.
VI - Toda pessoa tem o direito de enraivecer, de xingar, de esmurrar as paredes, de jogar coisas no chão, de gritar. Pois, como disse aquele poeta, tem coisas que só o grito consegue dizer.
VII -Toda pessoa tem o direito de perder, pois só quem perde sabe o quão inesquecível e instrutiva pode ser uma derrota.
VIII -Toda pessoa tem o direito de se dar mal nos negócios, de não conseguir lidar com dinheiro, de não querer ser rico, pois quem tem muito normalmente esquece como é viver com pouco.
IX -Toda pessoa tem o direito de ter medo, pois o medo é um bom anjo da guarda.
X -Toda pessoa tem o direito de duvidar, de perder a fé e de achar que tudo vai dar errado, pois às vezes, tudo dá errado mesmo, e não é culpa de ninguém.
XI -Toda pessoa tem o direito de não saber, pois quem já sabe tudo perde o motivo de viver.
XII -Toda pessoa tem o direito de falar bobagem, pois nem sempre é legal ser inteligente.
XIII -Toda pessoa tem o direito de se esconder, pois todo refúgio é recuperador.
XIV -Toda pessoa tem o direito de se achar o camarada mais ferrado do mundo, pois o problema de cada um é o pior do mundo para cada um.
XV -Toda pessoa tem o direito de reclamar, pois externar o descontentamento ajuda a gente a pensar sobre ele.
XVI -Toda pessoa tem o direito de desperdiçar uma boa chance, pois mesmo as boas chances, muitas vezes, não chegam em boas horas.
XVII -Toda pessoa tem o direito de não ser feliz incondicionalmente o tempo todo, pois a infelicidade faz parte da vida. E é mais feliz quem sabe lidar com ela do que quem a ignora.

Coração de leão

Chega um certo ponto na vida em que eu esqueci como é que se esconde os sentimentos. Talvez não os mais sutis, mas aqueles que nos definem, definem o nosso dia, o estado de espírito. Srta C me enviou a Declaração livre dos direitos das pessoas desobrigadas da felicidade constante. É transcendental não ser forçado a ser. Sim, simplesmente a ser. Então hoje eu botei a minha boca no trombone. E causei estrago. Tento me sentir culpado pelos danos causados mas não consigo. Só consigo ver a minha objetividade no tratamento do assunto: um corte cirúrgico, a separação das partes, uma análise meticulosa - quase matemática. Enquanto isto, meu interlocutor, que esperava palavras de solidariedade, balbuciava lógicas distorcidas e se calava no primeiro round de discussão. Knockout. E não estou satisfeito por isso porque a crueldade ou potencial humilhação (ah as diferentes perspectivas...) não era o fim. Preocupa-me ver a necessidade de uma outra pessoa de ser trazida à vida real, esta vida retadiretaconcretacorreta, e sair de um conjunto de expectativas criadas na sua mente e onde ela fatalmente se perdeu. E eu tive que ser sincero, vestir o meu coração em peito aberto, wear my heart on my sleeve.

A lenda do Rei Federer

Federer, por Leibowitz (backstage)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Do meu xará

"Travel is fatal to prejudice, bigotry and narrow-mindedness. Broad, wholesome, charitable views cannot be acquired by vegetating in one little corner of the earth."
Mark Twain

Separadas na maternidade

S. Palin, vice republicana

K. Walker, viciada álcool

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Entrevista sem um vampiro

Já tinha sido entrevistado na Rússia. Era para aparecer na televisão de Moscou - nunca soube se foi ao ar. Mas dei entrevista para uma revista técnica - e esta sim saiu. Agora dei entrevista sobre o Fundo de Garrafa. Clique aqui para ler a entrevista na íntegra: Entrevista Blogs.

sábado, 6 de setembro de 2008

Os caminhos da compaixão

Quero fazer uma viagem bacana, low profile e despojada. Fazer meu mochilão - eu que não perco este hábito - e partir para o Nepal, trekking num acampamento base no Himalaia, um sonho improvável de visitar o Tibet (por conta da atual política de restrições no local). Um dos primeiros livros que tenho lembrança de ter mexido comigo foi Os caminhos de Katmandu de René Barjavel. Escrito nos loucos anos 60, permeado por muitas viagens alucinógenas e uma viagem real a Katmandu e uma busca por si mesmo. Li no início dos anos 80 ainda moleque mas já curtindo a viagem dos outros. E sempre me ficou uma curiosidade quase infantil em ir a este lugar - quem sabe se não encontro algo por lá? Há uma necessidade quase indissociável em passar pela Índia - que tenho relutado absurdamente em ir embora sinais aquieali me indicam que tenho que ir lá também. E ontem, me recuperando do acesso de fúria tarantinesco e já transcendendo à tudo, me caiu no colo o texto do Dalai Lama. E o velhinho me fez transcender de vez quando falou de perdão e compaixão. Ele soa piegas se a gente não se livra de uma série de preconceitos, distorções de pensamento e fica apenas com a essência da vida. Veja só: "One of the emotions most disturbing our mental tranquility is hatred. The antidote is compassion. We should not think of compassion as being only the preserve of the sacred and religious. It is one of our basic human qualities. Human nature is essentially loving and gentle. I do not agree with people who assert that human beings are innately aggressive, despite the apparent prevalence of anger and hatred in the world. From the moment of our birth we required love and affection. This is true of us all, right up to the day we die. Without love we could not survive. Human beings are social creatures and a concern for each other is the very basis of our life together. If we stop to think, compared to the numerous acts of kindness on which we depend and which we take so much for granted, acts of hostility are relatively few. To see the truth of this we only need to observe the love and affection parents shower on their children and the many other acts of loving and caring that we take for granted." O texto completo está aqui.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Laowai, de Sônia Bridi


Só para dizer que este livro é muito bacana, mesmo. Coisa bem escrita, que a gente lê com prazer. Escrita por gente com um olhar cosmopolita e até um pouco poético. Sem exagero meloso, o que é um alívio para quem assiste a umas reportagens com pretensões e declamações de pretensas poesias (todos já sabem minhas opiniões sobre poesia de pretensos poetas). Melhor ainda é poder viajar com a escrita precisa da Sônia. Muito melhor ainda é ver as fotos do Paulo Zero no fim do livro - só é uma pena por serem tão poucas. É como fazer a visita aos amigos que voltaram de viagem e ficam contando as aventuras e mostrando as fotos e a gente vai tomando um kisuco e se maravilhando com tudo e dando vontade de ter estado lá. Fico lendo e lembrando da minha expedição (ainda não cortei o cordão umbilical, confesso). Por ter sido um laowai por um curto espaço de tempo, recomendo fortemente.

Amateur


Martin Donovan, por Hal Hartley

CSI

Inteligência emocional é o que faz a gente carregar um rosto impassível enquanto trata com alguém que não presta. Pra nada. Veio a este mundo para incomodar. Inútil de todo, nem de mau exemplo serve. E eu sou obrigado a tolerar isto - porque, por formalidades impostas pelo destino, não posso evitar este constrangimento constante. Olhar seu sorriso no rosto que me causa hojeriza, sua incompetente diligência, e perguntas tipo honey,don't. Há pouca vida numa atmosfera pesada (como diz o mexicano Sr D, 'que pesada'). Eu, furioso, personifico um vingador taratinesco, brandindo uma espada de samurai e vendo o sangue se espalhar por toda a sala e, finalmente ofegante, miro os restos humanos. Neste instante, estou com semblante impassível. Apenas com uma caneta na mão. Aguardando o momento. Aguardando a chegada do CSI.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Versões para o dia 1º

Beto Guedes: "Quando entrar Setembro e a boa nova andar nos campos..." Marina Lima: "É Setembro, tudo tenta se superar e, cheia até a beira, a vida quer jorrar..." LSJack: "A desordem na janela, a tristeza na TV: esse dia de Setembro que não para de doer..." Vanusa: "Fui eu que em primavera só não viu as flores e o sol nas manhãs de Setembro..." Green Day: "Wake me up when September ends..."