quinta-feira, 7 de agosto de 2008

No Rio

Nunca tinha feito um cruzeiro. Aliás, eu sempre achei que isto era coisa de velhinhos endinheirados que ficam no cassino do navio. Daí, lá fui eu com esta expectativa para o Rio Yang-tse - com as minhas neuras de idade e de falta de grana. Embarcamos na Pérola do rio em Chongqing, nos esbaldamos com a comida e nos esticamos depois da noite confinada no leito do trem, jantando comida de origem duvidosa. Embora o conforto fosse convidativo, bem como o ar condicionado do quarto, me abanquei no deck e fiquei olhandoolhandoolhando. Às vezes, tinha companhia de outros chineses, outras vezes era eu e Deus. Não conseguia entender muito bem porque deveria ficar dormindo na cama enquanto cruzávamos a China, no rio mais longo da Ásia, o rio mãe. De tempos em tempos, a paisagem ficava impressionante enquanto as montanhas se cobriam de nuvens depois da chuva abafada - tinha que lembrar que estava mais de 100m acima do leito do rio. Não era sempre que a vista era fabulosa, honestamente falando, mas o negócio era sorver aquilo tudo, imprimir as imagens na mente para que demorasse muito para esquecer. Meu pai e meu padrinho, aposentados da Marinha Mercante, adorariam ver as balsas, os navios cargueiros no rio, os sistemas de comunicação, jantar com o capitão e correlatos. Acho que era uma realidade do tempo deles - acho que eu curti por eles. Pegamos muita chuva nas pequenas Gargantas, mas deu para eu tirar uma foto clássica na China. Antes de desembarcarmos em Yichang, fiquei pensando na Represa das Três Gargantas. É uma maravilha da Engenharia (acho eclusas um barato) que eu, como humilde representante desta linhagem, aprecio - mas também reconheço que seja um puta crime ambiental. A propósito, o navio não tinha cassino.

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