sexta-feira, 25 de julho de 2008

Ultreya

Hoje é dia 25 de julho, dia de Santiago. Muita coisa aconteceu nestes últimos doze meses de peregrinação. Mas duas coisas ficaram gravadas na minha mente: perdão e gratidão. Coincidência ou não, a história de José do Egito cruzou o meu caminho algumas vezes. Lembram-se dele? O cara foi vendido pelos irmãos, escravizado, falsamente acusado, condenado. Na hora em que poderia se vingar, perdoou a todos e seguiu em frente. Esquisito o Zé, certo? Nem tanto – ele optou por viver em paz, leve, em comunhão com Deus. Então perdoei e agradeci muito pelo perdão que recebi. Foi aí que, no caminho, tropecei na passagem de Romanos 12:9-10 (O amor não seja fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros). Ah, como a gratidão, honesta e genuína, faz um bem terrível a uma alma combalida. Dá chance para que bons sentimentos cheguem e que sejam recebidos de peito aberto. Fechar-se cria mofo, mau cheiro, inveja e ‘a inveja é o câncer da alma’, já dizia John Dryden. Recebi um monte de ajuda neste ano que passou - e de onde menos esperava. Tanto que tem gente que nem sabe que me ajudou, gozado, não? Mas, francamente falando, todos se tornaram fontes de inspiração. Quero partilhar isto e aproveitar para dizer obrigado a cada um de vocês. Que levem suas vidas em paz, leves e em comunhão com Deus.

terça-feira, 22 de julho de 2008

O trabalho que edifica os homens

Para empregar os bilhões de pessoas na China, há um monte de gente fazendo trabalho redundante. Caminhamos pela Muralha da China por um trecho off-the-beaten track. Nosso grupo de malucos era o único a negociar os 10 km de sobe e desce pelas montanhas. Tivemos que pagar três ingressos para diferentes trechos da Muralha. No trecho final, após atravessar uma ponte pênsil, pagamos a última parcela – uns cinco Yuan, talvez. Havia dois carinhas no fim da ponte. Um para receber o dinheiro e dar o ticket. Ao lado dele, estava outro que recebia o mesmo ticket, destaca o recibo e devolvia para o transeunte. Em Beijing, encontrei uma atividade muito curiosa. Havia um cara no cruzamento das avenidas que controlava o fluxo de ciclistas. Ele impedia que os ciclistas avançassem o sinal vermelho, organizava o fluxo de pedestres na ciclovia, e ficava apontando sua bandeirola vermelha e assoprando seu apito. Figuraça. E se são necessários figurantes para os espetáculos, como o que vimos em Yangshuo ao ar livre entre o rio e as montanhas, não faltam pessoas. Computação gráfica substituindo figurantes em filmes? Na China? Para quê? É mais barato contratar um monte de gente.

sábado, 19 de julho de 2008

Seco e civilizado

Eu confesso. Sempre saí com meu carro, tomei meus chopps e retornei dirigindo para casa. Nunca extremamente bêbado, mas sempre um pouco alto. Agora com a Lei Seca, adaptarei a minha vida. Já ri muito em relatos de outros blogs, comentários inflamados e outros irrelevantes. No fundo de tudo isto, eu espero que ela funcione tanto quanto a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança. Vai fazer nosso país um pouco mais civilizado.

Raise the Red Lantern

Orientais adoram a simetria, equilíbrio e balanço. Toda esta organização parece entediante porque, aos poucos, alguns elementos se repetem e são até mesmo esperados. Mas me perguntava por que sempre que encontrava a simetria na arquitetura local eu ficava tão maravilhado. Templos são marcadamente equilibrados. A grandiosidade da simetria está presente em Beijing. Vamos ao pináculo: a Cidade Proibida. Todas as portas principais dos palácios e templos principais estão alinhadas. Perfeitamente alinhadas. Se estivessem no mesmo nível talvez o Imperador pudesse ver a uma grande distância sem interrupções. Ao norte da Cidade Proibida está Coal Hill e outra parte da cidade. E o alinhamento de avenidas permanecem. Numa escala reduzida, mas mais reclusa, charmosa e religiosa, está a Grande Mesquita de Xian. Fui até lá no início da manhã, na sua abertura enquanto os turistas preguiçosos dormiam. E curti um site deserto, pacífico, deslocado do barulho do bairro muçulmano da cidade, onde portais, salões, objetos estão simples e harmoniosamente dispostos. Então entendi que toda a beleza da simetria era um contraponto para o caos urbano ao redor daquele oásis. O caos era o desequilíbrio das pessoas, do número de pessoas, de edifícios funcionais porém sem personalidade. A simetria anulava o desequilíbrio.

Pausa na China... (II)

...e eu acompanho toda a cobertura da TV. E eu estava pensando no Protógenes. O Presidente da República diz para ele não se afastar do caso. A PF diz que ele se afastou porque quis. E surgiram as gravações da reunião (por que gravariam uma reunião? que esquisito) que confirmariam a desistência dele. E todos abrem seus sorrisos de Monalisa vingativa: ele seria jogado no ocaso, desgraçado por semear a discórdia e a desconfiança da opinião pública num caso tão polêmico. Escutei os trechos da reunião e não ouvi nada disto. Na verdade, cada um pode ouvir e interpretar o que quiser do que foi falado. Eu digo que tudo é uma falácia, um jogo de mentiras e interesse. Vamos aos fatos - Protógenes diz que quer fazer o curso 'Academia' e continuar seu trabalho no caso Dantas (ou a Operação Satiagraha estes nomes especiais das operações estão começando a ficar ridículos). Aí, dizem para ele optar entre uma coisa e outra - não vai ser deixado fazer as duas coisas. Ele opta pelo curso. Eu o compreendo. Ele deve estar na faixa 30-40, quer subir na carreira dentro da PF. Já deve ter trabalhado aos montes e chegou a um caso de alto perfil. Ele sabe que não vai se tornar um herói neste caso, dentro de uma organização de reputação discutível. Ele sabe que tem chance reais de subir na carreira se obtiver diplomas, evidências de desenvolvimento e competência. Daniel Dantas vai comprar o enterro do futuro dele - é inevitável. Protógenes somente vai poder respirar no futuro se demonstrar capacidade teórica - um acadêmico. Para garantir o que ele merece, ele deveria sim ter a oportunidade de conduzir os trabalhos do caso e a Academia simultaneamente. Sim, eu te entendo Protógenes. Só um cara chamado Pro-tó-ge-nes para entrar nesta enrascada toda.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pausa na China...

... para ficar indignado com Daniel Dantas, Naji Nahas, Celso Pitta et al.

Virei animal no zoológico

Lord W e mais 1 bilhão de chineses não aprenderam a lição 'Don't stare at people, darling, it's rude...'. Entretanto eles, de forma alguma, pretendem ser rudes. É apenas a curiosidade da população de um país que estava fechado para o mundo até relativamente pouco tempo. Beijing e Xian são cidades grandes, recebem muitos turistas, e fomos vítima de olhares insistentes poucas vezes. O maior choque foi nas estações de trem. Não me lembro de ter visto outros ocidentais nas estações. Nosso grupo de ocidentais era usualmente o único que ia pegar os trens noturnos. Os únicos ocidentais loucos que iam pegar os trens noturnos - todos os outros preferiam os aviões. Sempre chegávamos 45 minutos antes da partida do trem - it is showtime. As pessoas nos cercavam e nos olhavam intensa e curiosamente. Lembro-me de uma senhora que trouxe o seu menino de uns 3 anos, puxou a camiseta de um inglês do grupo e ficou apontando e mostrando o branquelo para o filho. O cara limitou-se a sorrir e dizer nihao (olá) para o menino. O ápice era quando atravessávamos o salão de espera para chegar até a plataforma. Carregávamos mochilas, malas, sacolas, garrafas PET de água, suávamos em bicas no calor sufocante do início do verão chinês e tornávamos o centro das atenções. Todos, sem o menor exagero, nos olhavam. Se estavam de costas, viravam-se. Esticavam pescoços. Ficavam na ponta dos pés. Mas não nos perdiam de vista. Na estação de Xian, quando pegamos o nosso segundo trem, já dizíamos 'somos os animais deste zôo'.

My little China girl

Os chineses adoram tirar fotos com os ocidentais. Não sei se nos acham bonitos ou bizarros. Tínhamos sido avisados que nosso grupo seria alvo de solicitações enquanto estivéssemos na Praça da Paz Celestial. Achei uma bobagem. Ignorei completamente. Até que flagrei as chinesinhas tirando fotos minhas meio que disfarçadamente e dando risadinhas adolescentes.

O problema de viajar sozinho é que quando a gente quer sair na foto tipo érealmenteeuestavalá, a gente tem que pedir para algum candango que está por perto. Para evitar grandes frustrações, procuro pessoas também sozinhas (para permuta de favores), que está com máquina trombolho (rotulando-se euqueriaser-pro), mulheres acompanhadas de outras (se com homem, pode parecer assédio).

Visitando o Templo do Céu, precisei de uma foto e pedi a uma chinesinha (surprise, surprise). Não só ela me prestou o favor mas também pediu ao pai para tirar uma foto dela com a irmã e eu. Então tá então - abri o meu sorriso coringa e tentei não estragar a foto. E eis os meus 15 fame-filled seconds.

domingo, 13 de julho de 2008

Na fila, em Beijing

Eu havia corrido o suficiente para me tornar um last-minute no meu vôo para Beijing. Cortar despesas significa conexões entre portões distantes em aeroportos. Minha mala não havia sido tão veloz e curtiu mais 24 horas no Roissy-CDG. E eu tive que comprar um kit sobrevivência para as minhas primeiras 24 horas chinesas. Descobri que eu não havia sido o único sortudo - faziam-me companhia na fila de registro de bagagens atrasadas alguns chineses e outros ocidentais. A grande diferença era que os ocidentais, na maioria europeus, fizeram uma fila. Os chineses nos ignoraram totalmente e entraram e saíram da sala de registro, se abancaram nas poltronas, fizeram sua vez e se foram. Enquanto isto, nós ocidentais lançávamos olhares de indignação. E isto era tudo, mesmo porque estávamos amendrotados pela potencial confusão que criaríamos com os nativos sem nem mesmo ter saído do aeroporto. Esta foi a lição número 1 da China. Estava num país de 1,3 bilhões de pessoas. Se o candanguinho não abrir o seu próprio caminho, existe mais de um bilhão de pessoas para passar à frente dele - esta é a realidade do chinês. Mais tarde, em Beijing, a lição foi reforçada. Onde quer que fosse, encontrava um amontoado de gente no balcão para compra de ingresso. Ainda tentava esperar minha vez num arremedo de fila. Por pouco tempo. Eu aprendi rápido a usar o meu corpo, o cotovelo principalmente, para garantir a minha vez.

sábado, 12 de julho de 2008

Viva a diferença

Antes de voltar, tentei formar uma opinião sobre a China. Troquei opiniões com meu companheiro de jornada, o irlandês Sr J, e chegamos a um adjetivo banal: diferente. É lugar diferente de tudo que já tínhamos visto, e muito mais diferente do que eu esperava. Vou descrever algumas coisas; procurei ser um bom observador, evitando julgamentos óbvios e inúteis. Cruzei a China de norte a sul: Beijing, Xian, ChongQing, o rio Yang-tse, Longsheng, Yangshuo, Hong Kong. Peguei metrô cheio, táxi barato, ônibus dirigidos perigosamente, trens noite a dentro e a fora, bicicletas por campos e cidades e os meus dois pés também me carregaram a muitos lugares. Até o último dia esperei ver comunas, todos vestidos igualmente com o paletó do chairman Mao, atmosfera opressiva. Nada, nada disso. O que vi foi um país crescendo, ferozmente comercial, uma população relativamente feliz e ainda majoritariamente obediente ao seu governo central. É definitivamente aquele o país que está carregando o crescimento do mundo. Se houver uma crise econômica ou política, efervescência ou rebeldia social que breque o seu (deles) crescimento, o mundo inteiro vai entrar numa crise magnífica. Não sei se eles têm a real ciência disto. Uma ameaça adormecida.

De volta para o futuro

Voltei. Ainda sem carro, endereço permanente, computador pessoal ou internet. Por sorte ainda tenho CPF. Sobrevivi a dois vôos intercontinentais, um transatlântico. Cruzei campos, túneis, nuvens, de trem, bicicleta e barco. Por sorte, não sofri nem de diarréia nem constipação. Respirei ares puros e poluídos também. Mergulhei fundo nas drogas lícitas antes de ser abalroado pela lei seca neste país. A máxima travel light não pôde ser aplicada aos meus 50 kg de bagagens na imigração (sem contar as caixas com livros, casacos e homeware que virão em separado). Conheci gente boa e outras, nem tanto. Vi lugares que quero voltar e outros que já até esqueci e outros que prefiro esquecer. Usando cybercafés, dependendo da boa vontade dos amigos, ou da internet na hora do almoço do trampo, já fui vítima de ataque de hackers. Mas era apenas uma molecada porqueira que se aproveitou da minha estúpida distração. É, acho que estou de volta.