domingo, 11 de maio de 2008

Laurie Anderson: a invenção da memória

A estória é sobre um pássaro numa época antes que o mundo existisse. Pássaros voavam em círculos no céu. Círculos.
Círculos.
E não paravam de voar porque não existia terra, somente o céu, e eles não paravam de voar. Até que o seu pai morreu. E isto tornou-se um grande problema - o que deveria fazer com o corpo? Porque, antes do mundo existir, não havia terra, só o céu. E os pássaros pensaram no que fariam, enquanto voavam.
Em círculos.
E voaram por dias até que o pássaro finalmente teve uma idéia. Ele decidiu enterrar o seu pai na parte de trás da sua cabeça.
Este foi o início da memória.
Foi com esta estória (tradução livre de resumos de outros sites) que o show Homeland da Laurie Anderson foi aberto, pontuada por calculadas pausas de frações de segundo entre algumas palavras. Impossível não visualizar aquele pequeno conto que termina por fascinar e nos deixar com um sorriso nos lábios.

Mas, o ponto alto foi a fina ironia de dizer que apenas um expert pode lidar com um problema. E se não há um expert, seus problemas duplicam. E o grande problema é que queremos ter controle - quando tudo está fora de controle. E alfineta a guerra, a invasão, a procura por um problema pelos experts. E ironiza o aquecimento global reconhecido globalmente por um expert reconhecido e que até ganha Oscar por isso.

O concerto foi instigante, nos encheu de vida porque nos deu a chance de sentir que ainda somos capazes de pensar. Penso, logo existo. Agradecemos a Laurie com nosso aplauso e deixamos o Barbican naquele primeiro sábado de maio para tomar uma taça de vinho.

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