sábado, 29 de março de 2008

Continuum

A gente quer um monte de coisa e a gente não quer outro grande lote de coisas. Enquanto gastei energia tentando evitar o que não queria, perdi o foco do que queria de fato. E, de repente, everything falls into place e barras pesadas tornam-se de isopor. Empurrei tudo de lado dando risada da situação, dando risada de mim mesmo. Ultimamente, tenho ficado particularmente radiante quando encontro algo que quero, com aquele sorrisoboboestampado, particularmente excitado em correr atrás, particularmente extasiado em conseguir. Tenho testemunhado a conspiração do destino em me favorecer. Não, não me arrogo ter sido abençoado em específico ou tocado pelos dedos de Deus, muito embora Ele esteja lá e faça parte da minha vida. É uma questão de criar uma espiral positiva, uma corrente do bem. Afinal, não estou fazendo nada de mal para ninguém. Muito pelo contrário, é essencial a consciência de que eu esteja criando algo de bom para mim, para os meus, para os que estão à minha volta, e até para quem não ache que mereça. Intenção positiva gerando coisas positivas - continuum positivo. Sei que tudo isto é meio etéreo e soa auto-ajuda, mas é uma questão de partilhar o que está na minha cabeça. É uma questão de fé.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Canarinho

É admirável o espírito aventureiro do inglês. É sempre possível encontrar uma horda deles nos locais mais exóticos do mundo. Neste instante, possivelmente haverá alguém no meio do Serengeti, perdido na China Ocidental ou em alguma ilhota remota do Pacífico. A contrapartida é quando o espírito corsário se apodera do mais comum viajante. Isto já resultou num Museu Britânico coalhado de múmias egípcias ou melhor equipado das partes do Pathernon do que a própria Grécia. Pior é, como hoje vi na TV, um caboclinho se arrogar a capacidade de cozinhar receitas espanholas melhor do que os espanhóis. Ou achar que pode criticar ou interferir nos assuntos de outros países. Isto seria motivo de um muxoxo de descaso na maioria das vezes. Só que quando a gente está no exterior - brazuca expatriado, deportado, exilado, isolado - um comentário desdenhoso sobre o brasilmeubrasilbrasileiro se torna quase um incidente diplomático. Os nervos, vestidos com a camisa canarinho, ficam à flor da pele. Pode ser a verdade mais ultrajante possível - sexo na TV, morte no trânsito, violência, nepotismo, corrupção, paternalismo político - mas este é um problema nosso, meu e seu, querido blogger leitor e eleitor. E de ninguém mais. E tenho dito.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Memorable quote #6

"Some books are undeservedly forgotten; none are undeservedly remembered."

W.H. Auden

segunda-feira, 24 de março de 2008

Post-Pós-Pás-coa

Segunda-feira pós-Páscoa também é feriado na Terra da Rainha. Acordei nesta manhã sob uma queda de neve. O bobão aqui estava esperando há tempos que a neve caísse e lá saí eu a caçar a câmera para o registro neste post. Neste fim de semana fui ver o Menino Jesus entre outras coisas em Praga. Aproveitei para fazer uma oração por todos, fiquem tranqüilos e em paz. Religião é o ópio do povo, sinto muito Marx, porque acho que estou chapado. Voltei ontem a noite, sob neve em Ruzyne e frio de 3ºC em Heathrow. Cansado até a alma de tanto andar pela Karlovska (ou como os locais a chamam, Karlův most), tendo dado risada das Malostrankás, Francouzkás, Náměstí, e todas aquelas palavras ininteligíveis, tão diferentes da nossa língua mas que induzem à brincadeira de tentar entender a estrutura do idioma checo. Tendo conversado muito com meu companheiro de viagem Sr W, molhamos sempre nossas palavras com Pilsner Urquell. Contei para ele que eu sou do tempo da Tchecoslováquia (adorava o desafio deste nome quase impronunciável) socialista, sob a Cortina de Ferro. Ainda bem que os comunistas tchecos entendiam de história e pouparam o centro histórico e as igrejas de todo o planejamento totalitário e igualitário absurdo. Patrimônio formidável, numa cidade bem humorada, mas que ainda tem um caminho razoável até se equiparar com outros grandes centros europeus - até no preço, porque Praga ainda (bem) é surpreendentemente barata. O comércio nos lembrou o da Rua Sergipe em Londrina - talvez a Marioshka me entenda. Fiquei num albergue - o Czech Inn (captaram a piada?), e foi muito melhor do que muito hotel por aí, numa ótima relação custo vs. benefício. O microcosmo de um albergue pode não ser o mais representativo da cultura local, mas encontramos gente muito educada, solícita e que falava inglês com primor. Arriscamo-nos na culinária local: trdlo (pãozinho doce feito num rolo), Bohemian goulash e pato assado com o onipresente dumpling (grande, massudo, pesado), klobása (salsichão, que só o Sr W encarou porque meu fígado dava sinais de fadiga). Nada de coisinhas leves, naturais ou saudáveis - legumes ou frutas - só carnes e massas que, associadas à cerva, me deixaram com caradeluacheia. Mas cheio de proteína e energia, pronto para a próxima aventura.

Créditos: a foto é minha mesmo, daqui da minha janela no Orient Wharf. Só dá para ver a nevasca clicando na foto...

domingo, 16 de março de 2008

A Páscoa chega mais cedo

Ao contrário da maioria dos meus amigos bloggers, não me preocupo quando fico um tempo sem bloggar. É estimulante ver o que os outros estão produzindo. Observar outras perspectivas até para poder renovar este local. Minha cabeça está vazia agora. Sim, sem muitas idéias Ikea (ou TokStok - pré-montadas), está absolutamente receptiva e pouquíssimo reativa ao ambiente. Consegui me devencilhar do meu controle sobre meus planos futuros. Desamarrei tudo e vou ver onde e se vou amarrar de novo seiláviuentende? Vou dar umas risadas e depois eu vejo no que dá. Aproveitando - Easter comes early this year - vou fugir da ilha do Lost na quinta-feira, daí já desejo excelente Páscoa, lembrando da mensagem de fé e renovação.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Se a Morte chegar e perguntar por mim, faça-me o favor de dizer a ela que volte amanhã

A primeira vez que ouvi Diamanda Galás foi há uns 15 anos atrás. Foi em algum programa totalmente alternativo na falecida Fluminense FM, a Maldita. Talvez algum com José Roberto Mahr ou a Selma Boiron num distante domingo à noite. Foi assustador. Porque era uma rádio de puro rock - R.E.M., Whitesnake, Echo - e, de repente, tocava um fragmento do concerto de Plague Mass. Pura ópera para trilha sonora de filme de terror gótico alemão. Dava vontade de sair de perto, mas não consegui mudar a estação. Era uma sensação muito louca, de gente louca fazendo música para gente louca.

Pois que o mundo deu muitas voltas e eis que caiu no meu colo o anúncio para um show de Diamanda. E lá vou eu, morrendo de medo, dia 18. Às vezes, a gente tem que ser submetido a um tratamento de choque para exorcizar os maus espíritos e tomar controle da situação.

Talvez escute Si La Muerte, que acho uma grande brincadeira. Dou sempre risada do cara que manda a Morte voltar outra hora porque tem muito ainda por fazer. É genialmente irônico.

Tenho a tendência a dormir em ópera, ballet, performances. Quanto mais clássico, pior. Quanto maior a duração, pior. Vou entrando em um estado zen-alfa e abstraio completamente. Olhos lacrimejantes, bocejos irresistíveis.

Paira a dúvida. Vou me assustar, dormir ou dar risada?

domingo, 9 de março de 2008

Como assim?

Sou facinho de entender. Admiro a honestidade direta reta e concreta das pessoas. Encanta-me observar a gentileza e gratidão no trato de um com os outros. Felizmente ainda me surpreendo com a fidelidade. Quero muito as pessoas que falam as verdades olhando no olho - emitem uma aura de confiança. Quero participar da cadeia de solidariedade em que estas pessoas estão envolvidas. Já sinto as vibrações positivas do seu otimismo irresistível. Vamos ficar lado a lado numa tranqüilidade sem igual, sem entender porque podemos contar um com o outro. Vou ficar escutando as suas descrições do mundo através do seu olhar crítico, investigativo, perplexo, curioso. Não estou nem aí para quantos anos tem, seu sexo, aparência, sua fé, se é daquidalioudelá, da cor do seu corpo ou se seus cabelos são secos oleosos ou normais. Mas vou correr com todas as minhas forças dos aduladores. Que gente vadia, vazia procure seus iguais para copular. Farei minha caradepaisagem para os emocionalmente instáveis e imprevisíveis. Talvez ria internamente daqueles que têm um assunto só, antes de procurar por outros com, pelo menos, dois. Mesmo que seja difícil, procurarei esticar minha curta paciência para tolerar aqueles que culpam o mundo e incriminam o destino por suas mazelas. Terei poucas, se alguma, discussões com aqueles que querem ganhar tudo no grito. Vamos pedir piedade, Senhor piedade (valeu, Cazuza), para aqueles que genuinamente e ingenuamente pensam que vão enganar as pessoas todo o tempo.

O de um rato

Sorry tinha esbarrado em alguém. Olhou de soslaio e continuou em frente. Esticou a coluna, parecendo que tinha crescido mais uns 5 cm. Abriu um sorriso. Entendeu o efeito que isto causava nas pessoas. Era um meio sorriso de quem sabe de um segredo, de confiança, um sorriso de quem don't give a rat's ass para o que poderiam estar pensando. Sua mente estava tranqüila, uma tela vazia, uma folha de papel em branco. Só respirava e caminhava - e, para uns, só isto pode já ser um desafio. Andava à tôa e, finalmente, o foco estava só naquele momento, no ar frio da tarde, no cheiro de comida indiana, num amarelo solar no meio de roupas acinzentadas.

sábado, 8 de março de 2008

Don't look back in anger

Quando chegou em casa, tirou a carteira do bolso e a jogou displicentemente em cima do sofá. Tirou os sapatos pisando nos calcanhares. Os pés estavam gelados por ter ficado tanto tempo no frio da rua, de papo furado. No caminho para o banheiro, já deixou o celular em cima da estante no corredor. Um livro caiu em cima dele, mas nem se importou. Usou o banheiro para um número 1 e lavou as mãos com dignidade. A torneira do bar só tinha água fria e aquele maldito secador de mãos automático quebrado. Os olhos estavam meio vermelhos e pensou no quão bêbado ainda estava - beba com moderação, bem com moder..., beba! Enquanto arrumava a cama, a calça desabotoada caía cintura abaixo. Rememorou o que tinha dito e ouvido naquela noite. Das risadas sonoras nos momentos de ridículo, sorriu novamente. O livro de cabeceira voou do meio do edredom para o chão. Sacudiu a cabeça porque deveria ter ficado calado, sem usar aquela frase de efeito ridícula. Onde foi parar o chinelo? Achava que a conta deveria ter sido rachada por todos - teria sido mais justo - mas não é de bom tom ficar discutindo se alguém faz questão de pagar tudo. Tirou o relógio constatando que estava realmente muito tarde. Nada o tiraria cedo da cama no dia seguinte. Camisa, calça, underwear trocados - algodão de dormir, suspirou inconscientemente. Amanhã literalmente não ia lembrar de mais nada. Que reconfortante.

domingo, 2 de março de 2008

Fenda

Alguns acham uma benção poder lembrar do que sonharam, outros fariam de tudo para se lembrar do que sonharam. Eu, por minha vez, acordei com um choro engasgado, uma angústia forte. Não é algo que alguém queira sentir. É só parte de uma angústia que ainda sinto pelo meu irmão. Enquanto acordado, é uma repentina fenda, vão, rasgo que se abre no meu peito. E sai uma dor tão forte lá de dentro - como uma luz, como uma radiação. Não dura muito, talvez alguns minutos, talvez um minuto, como se não suportasse muito mais do que isto. Em seguida, a fenda se fecha. E a vida continua. Tenho medo de sonhar com isto de novo. Porque não quero carregar esta angústia no peito, porque ele não gostaria que eu carregasse esta angústia no peito.

Confissões e curiosidades de um usuário de Ipod

Eu tenho um Ipod. É um trequinho legal, acho eu. Mas tenho umas curiosidades. Queria saber se os outros usuários têm o mesmo problema para desenrolar os fios do fone quando vão usá-lo. Puxo dali, torço daqui, faço o inverso, solto o plug, coloco o plug, suspiro, conto até dez. Quando está tudo livre, coloco os formidáveis fones no meu ouvido. Só que meus ouvidos devem ser muito escancarados. Sim, porque os fones insistem em cair ao menor movimento da minha cabeça. E, confesso, coloco o L no ouvido esquerdo e o R no ouvido direito. Será que há mais gente assim, me pergunto.

Abaixo a tristeza

Propaganda da cadeia de restaurantes Prêt-à-Manger.
Fotografia: Fundo de Garrafa

sábado, 1 de março de 2008

Lost

Há exato 1 ano caí nesta ilha.

Harry, príncipe semi-deus guerreiro

Sempre achei o Harry mais legal do que o Bill. Sempre foi mais maluco e, sobre tudo, é ruivo. Não vai ser Rei, por isso não precisa ficar tão preso às regras. Daí, de repente, ele desaparece por 10 semanas. E agora, a estória vem à tona. O cara estava servindo no exército em pleno Afeganistão, junto com as tropas da Sua (Dele) Majestade Vovó.

Numa manobra especial, toda a mídia inglesa foi reunida no Ministério da Defesa para um pacto: Harry iria para o front e ninguém noticiaria nada a respeito. Hoje, assistindo a uma entrevista de uma editora presente à reunião, ficou evidente o orgulho da mídia com este acordo. Por um lado, fariam algo de positivo: um esforço conjunto em prol da Realeza (estavam com saldo devedor desde o affair Lady Di) e em prol da moral das tropas (ninguém quer se sentir esquecido lá no meio da guerra na terra de ninguém).

No final, quem deixou vazar a informações aparentemente foi um site australiano - mas isto é o que menos importa agora. A editora inglesa na entrevista disse orgulhosamente que sabia que seria a mídia estrangeira que noticiaria a história porque, simplesmente não se importariam, afinal 'Harry não era o Príncipe deles'. Sinta o tom de orgulho.

Ora, todos sabiam que a informação iria vazar mais cedo ou mais tarde. Harry não iria conseguir ficar incógnito tanto tempo por lá, nem desaparecido por tanto tempo por aqui. As pessoas comentam... Agora, ele é trazido de volta. A presença anunciada em terras Afegãs o tornaria (e também seu pelotão) alvo preferido do Taliban.

Analisando friamente, todos estão felizes - afinal, a manobra foi ingenuamente genial. O Príncipe teve sua vontade atendida - ele havia sido impedido de ir para o front, afinal é o 3º na linha sucessória. O moral da tropa foi para estrastofera. O povo está orgulhoso do seu Príncipe-Guerreiro. A mídia inglesa, feliz por ter interpretado seu papel - e ainda pode tripudiar a mídia estrangeira. A Rainha deve estar radiante. Harry volta para o seu Reino como um Semi-Deus.

A Monarquia aqui vai muito bem, obrigado. Aliás, melhor do que nunca.