quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Meus queridos

Estou no Rio de Janeiro, sob um sol escaldante e uma conexão discada. Não sei se isto me enche de fúria ou frustração. Volto a terra brasilis mais uma vez para mais um balanço. É, este ano foi muito mais foda do que eu poderia esperar. Não sei o que vai acontecer no ano que vem. Não sei muito bem o que quero que aconteça mas acho que sei o que eu não quero que aconteça. Este é um fim de ano de sabor amargo, esquisito, quando estou tentando compor um futuro e tudo está incerto, temporário. Quero que 2008 passe logo, que ele me seja leve, e que 2009 chegue em breve. Tomara que o destino me prove que tudo possa ser muito melhor do que minhas expectativas - mas não consigo ver isto. Uma nuvem acinzentada passa por cima deste post. Mas também vejo uma luzinha lá no horizonte, afinal sou um eterno otimista. É difícil, mas nada impede que eu envie as melhores vibrações para todos os meus amigos - reais e virtuais. Minha felicidade também depende que os meus amigos estejam felizes. Abraços e beijos a todos. Stay fabulous.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Crime, culpa e castigo

Um canoista desapareceu há 5 anos no mar. Sua esposa e filhos, depois de se recuperar do trágico evento, seguiram suas vidas. Ela sacou o seguro de vida e se mudou para o Panamá. Um dia, o cara reaparece na Inglaterra desmemoriado. Os filhos ficam atônitos, mas ele é levado para a polícia para dar explicações. A esposa é avisada no Panamá e quer voltar imediatamente para rever o marido. Só que aí começa a aparecer a lama. Uma pessoa fazia uma busca no Google e encontra uma foto. A imprensa então publica a fotografia do casal no ano passado junto com um corretor de imóveis no Panamá. Bonitos, saudáveis e felizes. A farsa cai. O marido é preso na Inglaterra. A esposa reconhece a veracidade da foto e resolve voltar para o país e é imediatamente presa ao desembarcar. Os filhos não querem ver os pais. Leia um timeline da estória aqui. O que o(s) levou a aplicar o golpe é certo: a grana. Eles poderiam estar voando pelo mundo. Ou mesmo ela poderia ter permanecido no Panamá e aguardar uma potencial extradição. Mas ambos deixam tudo para trás e voltam. Sentiram culpa. Francamente pensava que isto não fazia parte do repertório daqueles completamente criminosos.

"Eu prefiriria ter 6 gramas"

Comentário de Amy Winehouse quando soube que tinha sido indicada a 6 Grammys.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Trilha sonora para uma obsessão

Olhou a fotografia e quis que estivessem mais coladinhos, com um sorriso mais amplo. Every breath you take and every move you make. Every bond you break, every step you take: I'll be watchin' you. Quis que estivessem mais felizes. Every single day and every word you say. Every game you play, every night you stay: I'll be watchin' you. Oh, can't you see? You belong to me. How my poor heart aches with every step you take! Tentava lembrar o que tinham conversado naquela noite. A cada tentativa criava uma frase nova - talvez que nunca tinha sido dita. Criava uma realidade. Every move you make and every vow you break. Every smile you fake, every claim you stake: I'll be watchin' you. Não aceitou te perder, justo quem estava acostumado a tudo ganhar. Since you've gone I've been lost without a trace. I dream at night, I can only see your face. E ficou olhando a fotografia. Sem entender muito bem, sem saber para onde ir. I look around but it's you I can't replace. I feel so cold and I long for your embrace. I keep cryin', baby, baby, please. Oh, can't you see? You belong to me. Era uma angústia indignada, uma afronta aos seus sentimentos - será que você entenderia? Era a mesma indignação de Sting quando entoava: How my poor heart aches with every step you take! Every move you make and every vow you break. Every smile you fake, every claim you stake: I'll be watchin' you. Every move you make, every step you take: I'll be watchin' you. E ficou olhando a fotografia. I'll be watchin' you (every breath you take, every move you make, every bond you break, every step you take) I'll be watchin' you (every single day, every word you say, every game you play, every night you stay) I'll be watchin' you. E ficou olhando a fotografia.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O pato gordo

The Fat Duck é um restaurante caríssimo aqui da Inglaterra. O chef é Heston Blumenthal e ele tem um programa de televisão em que ele mistura ciência e culinária - In search of perfection. É legal se você é ligado na SuperInteressante mas pode ser tedioso se você quer aprender a cozinhar algo de forma rápida e simples. Deixando de blahblahblah, quero me concentrar na idéia de um pato gordo se refastelando com os pratos - como numa das refeições eduardianas com 10 pratos. Ou mesmo como aquele ganso cruel e forçosamente engordado para fornecer o foie gras. Em pensar que eu, gordo e hipertenso, vou ter que me controlar para tudo o que é lindo e delicioso. Um pato gordo tolhido das guloseimas da vida, um gansoparafoiegras às avessas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Odeio muito tudo isto

Nada melhor do que fazer compras de Natal. Lojas cheias, ruas largas transformadas em ruas de pedestres, gente tropeçando umas nas outras. Indecisão constante no que comprar, em quanto gastar e julgar se o presente é bom o suficiente. Chega o momento em que se entra numa única loja e se compra tudo lá - pequenas variações no papel de presente, colocando as iniciais do presenteado embaixo da decoração, no vinco do embrulho para não aparecer muito. Escadas rolantes, cheias. Pagar no caixa, procure a fila. Provador repleto de consumidores e seus acompanhantes dizendo está ótimo, hum precisa de um tamanho menor, cores não combinam. Carregar tudo para casa torna-se uma tarefa hercúlea. Cuidado para não abalroar ninguém na rua, nem ser abalroado, sorry, excuse me. E a chuva se instala.

O que a rotina corriqueira e trivial esconde

Semana passada fui tomar o metrô em Whitechapel - no leste de Londres. Carregando minha mala, ia para Paddington tomar o velho colega Heathrow Express para 'Heathslow'. Estava preparado para observar a fauna urbana e registrar mentalmente algo. Desta vez, o objeto do meu interesse era um casal muçulmano. Jovens, ele usava a bata longa, larga e branca sobre sua calça, coberto por um casaco preto deslocado. Barba longa. A esposa com sua roupa longa, larga e preta. Não somente com a cabeça coberta, havia apenas uma fresta por onde devia exergar algo. Sempre provoca-me um certo desconforto quando vejo isto. Não é indignação, é só um incômodo pessoal que guardo para mim por respeito.

Daí vamos para dois casos relativamente recentes chamam a atenção no mundo muçulmano. Primeiro, a mulher árabe que foi condenada por não estar acompanhada de parentes do sexo masculino (e foi sucessivamente estuprada) na Arábia Saudita. E, segundo, a professora inglesa no Sudão que quase foi condenada porque, na sua classe, apelidou um ursinho de pelúcia de Maomé.

Existem leis particulares em cada país que são reflexos culturais locais. É inútil criticar uma cultura que não é a nossa, em que não vivemos. Observar e compreender é mais importante do que radicalizar. Mas existe o limite da decência humana e da utilidade das leis como ferramenta de organização social. Uma mulher estava, por algum motivo, desacompanhada e foi estuprada por diversos homens. O estupro já não teria sido punição suficientemente cruel para um delito tão particular? Uma adição de 200 chibatadas e 6 meses de prisão parece desproposital até para olhos compreensivos como os meus.

Uma ação descuidada, chamar um brinquedo com o nome do Profeta, feita por uma estrangeira para crianças: a perfeita combinação do desastre. É falar a coisa errada sobre o assunto errado no lugar errado para as pessoas erradas no momento errado. Entretanto, pergunto-me o quanto a reação pode ter sido exagerada. Por sorte (ou pressão diplomatica, ou econômica), o governo de Khartoum não caiu na armadilha do despropósito com conseqüência mais nefastas para a professora. Tudo se encaminhava para o pior porque a turba ignorante e enfurecida já iniciava o clamor por ações mais radicais nas ruas.

Irã e bombas nucleares não me preocupam tanto quanto estas pequenas e terríveis coisas da rotina. Elas me parecem a base de tudo, de todos os exageros, de todo o caos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Acordou e voltou a dormir

Acordou imobilizado sob o edredon, não abriu os olhos. Só imaginou a escuridão do quarto. O sol não poderia ter nascido ainda para que abrir os olhos se não há nada para se ver? Despertou indignado por um sonho em que testemunhava injustiça - uma das situações mais deploráveis a que alguém poderia ser submetido. O coração pulsava forte e acelerado. Sentia as veias aflorando na pele - pernas, braços, testa. Um suor leve umedeceu seu corpo - peito, costas, virilha. Incomodado, respirou fundo, empurrou com força o edredon, puxou as pernas para o ar frio da noite. Abriu os olhos, sentou-se na cama, e descobriu a luz acesa do quarto numa noite escura que ainda continuava lá fora. Olhou com decepção para o marcador do livro de um lado e o livro propriamente dito fechado do outro. Recusou-se a verificar que horas eram. Novamente deixou-se imobilizar instintivamente por uma fração de segundos que havia se tornado uma eternidade. Esticou o braço para alcançar o interruptor e apagar a luz, derrubando algo pesado e barulhento no caminho. Deixou as costas caírem novamente sobre o colchão. Penou para deixar a adrenalina baixar. Rolando de um lado para o outro na cama, enxugou a névoa de suor, gelou seu corpo. Voltou a dormir.

Na arquibancada, enquanto o circo pega fogo

Uma das maiores lições que já tive desde que estou aqui em Qüinzáilan é que sugestões não solicitadas não são bem vindas.

Estava assistindo o irritantemente excelente Election. Há uma cena na sala de aula em que o professor faz perguntas para uma classe pouco brilhante e sempre a aluna CDF levanta voluntariosamente o braço para o responder. Enquanto existem outros alunos para responder, o professor a ignora. Ela só tem vez quando os medíocres já esgotaram suas possibilidades - e ela responde com ultrajante alto nível. Tenho este maldito hábito de pedir licença levanto o braço e lançar meus comentários respondo às perguntas, quase sempre incisivos e quase nunca solicitados. É irresistível.

Só que por aqui, isto é encarado como patronising - algo como se eu estivesse tratando com indivíduos com dificuldades de raciocínio, também chamados de mentally challenged (preste atenção na ironia sutil desta expressão). Acreditando ser esta uma característica cultural, resolvi me adaptar e deixar que cada um lide com seus desafios como quiser e puder. Como diz o Sr D, 'Se pedir ajuda, pode até receber. Senão, ...'. Subo agora para a arquibancada e assisto o circo pegar fogo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Retrato falado

Um dia ficou olhando as pessoas em volta, todas aprisionadas no vagão de metrô. Como a fuga a cada estação era limitada, permitiu que fosse tranformando os rostos em retratos. Memorizava traços marcantes: testa aberta, nariz adunco, queixo pronunciado, rosto quadrado, triangular, os cortes de cabelos e os óculos que emolduravam a miopia. A partir de um certo momento, instalou-se um padrão repetitivo. Lembrava-se ter construído os mesmos retratos-falados nos dias anteriores. E os mesmos montados todos os dias desde que se viu por gente. Se o rosto que viu lembrava alguém a 2.000 km de distância, poderiam carregar a mesma carga genética? Os descritivos foram extrapolados para pequenas histórias, como a criança usando terno, a fugitiva do asilo, o pai e filho com os mesmos padrões de penteado arrepiado. Poderia inventar um conto só de olhar para uma orelha. Olhos expressivos, então, poderiam se tornar um épico de centenas de páginas.