quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Conversando com a sua ausência

Depois que a vida voltou a uma normalidade quase irritante, de vez em quando faz-se um vácuo no meu peito. E é quando lembro de você, meu irmão. Estas atividades repetitivas, corriqueiras, monótonas fazem a minha mente entrar num certo estado de transe. É quando me vejo conversando com a sua ausência. É um monólogo, na verdade, em vez de diálogo. Aposto que você gostaria de saber das novidades, e de como é a vida por aqui, e de me dar dicas para lidar com os problemas, e me contar dos seus novos negócios, e como está sol e calor e da praia, de me dizer que quer me encontrar logo, e de me dizer que vai fazer uma oração por mim. De repente, o vácuo torna-se um peso no meu peito que eu, por medo de afundar e afogar, largo e volto à superfície para respirar. E meus pulmões se enchem rapidamente e com força - chega a doer. Procuro então de novo a normalidade quase irritante para seguir em frente.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O amarelo em Wapping

Caminhava eu distraidamente pelas ruas do bairro nesta segunda-feira. Com frio e por causa do chuviscotipocuspe, meus olhos estavam voltados para o chão molhado, cobertas de folhas secas de um inverno que já chegou. Fui atravessar a rua de paralelepípedos, olhei para direita - em Londres, olhe para a direita primeiro. Mas parei durante aquela fração de segundos que parece eterna. E olhei para o alto. E fiquei olhando para o alto. E abri um sorriso bobo. O velho carvalho da estação de força, que já havia reparado estar totalmente seco, desta vez estava coberto de um absurdo amarelo. Muito embora parecessem flores, eram guarda-chuvas amarelos. Uma instalação de Sam Spenser, chamada Bloom nome bastante apropriado. E ficou aquela convulsão emotiva que só arte moderna consegue provocar, pensando numa Mary Poppins psicodélica que perdeu sua coleção de guarda chuvas num vendaval qualquer de Londres, ou numa árvore mutante tipo Wolverine (Oakerine?), ou num Van Gogh revisitado.
Saiba um pouco mais sobre o Wapping Project nos seguintes links:
Toda vez em que tropeço em algo interessante, deixei a câmera em casa. suspiro.

Velho e cansado

De repente, deu-se conta que tinha perdido todos os seus documentos. E todas as referências que existiam sobre sua vida havia desaparecido. O sorriso se abriu: descobriu que era a grande oportunidade para começar do zero, limpar todas as pequenas sujeiras - afinal lá ninguém sabia de sua vida pregressa. Só que este recomeço também significaria que qualquer história, experiência, sucesso, ou influência seriam anulados. A destruição seria impiedosa e trataria tudo de uma só forma. O processo de reconquista, reconstrução e reafirmação teria que ser iniciado, sem chance de usar fasttracks ou atalhos. Parou e pensou o quão velho e cansado já estava para tudo isso.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Vulnerabilidade

Eu me pergunto o que acontece para que alguém perca tudo o que tem na vida. Todos nós conhecemos alguém que, em algum ponto da vida, num lance qualquer, perdeu grana, família, amigos, a dignidade - não necessariamente nesta ordem. Pode ser que tenham feito todas as opções erradas, uma após a outra e não tenham sido capazes de se aperceber isto a tempo.
Sabe aquela prima - bem aquela - que se atracou com a bebida e caiu na vida? E o primo e as drogas: sem comentários. Sou bonzinho em colocar os parentes de segundo grau - tudo pode acontecer com os de primeiro...
"Procurando bem, todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina..."
O quanto podemos estar vulneráveis a ponto de perder tudo que temos?

sábado, 24 de novembro de 2007

Como amar O Superstar?

Em Jesus Cristo Superstar, a ópera-rock, Maria Madalena se depara com Jesus. Ela está apaixonada mas não entende muito bem. Aquele cara era diferente de todos aqueles com quem já havia estado - por motivos óbvios. E ela fica perdida nos seus pensamentos e sentimentos e diz I don't know how to love him. E cada vez que eu escuto esta música ela se torna mais atemporal e universal. Estive conversando com o Sr M, que se diz ateu. Embora o diálogo tenha sido pontuado por ataques à instituição formal da igreja, foi interessante perceber que existia uma necessidade de acreditar, uma energia fervorosa, não canalizada naquele cara. Havia um vão claro que permanecia não preechido - era só atravessar a ponte e acreditar num Deus (independente de qual). Mas ele não sabia como amá-Lo, ou como começar a amá-Lo. Estas são as palavras de Madalena, escritas por Rice e Lloyd-Weber:

I don't know how to love him. What to do, how to move him. I've been changed, yes really changed. In these past few days, when I've seen myself, I seem like someone else. I don't know how to take this. I don't see why he moves me. He's a man. He's just a man. And I've had so many men before, in very many ways, he's just one more. Should I bring him down? Should I scream and shout? Should I speak of love, let my feelings out? I never thought I'd come to this. What's it all about? Don't you think it's rather funny, I should be in this position. I'm the one who's always been so calm, so cool, no lover's fool, running every show. He scares me so. I never thought I'd come to this. What's it all about? Yet, if he said he loved me, I'd be lost. I'd be frightened. I couldn't cope, just couldn't cope. I'd turn my head. I'd back away. I wouldn't want to know. He scares me so. I want him so. I love him so.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Etiqueta à mesa

Pediu o peixe e trocaram imediatamente os talheres. Colocaram à sua frente aquele garfo esquisito e a faca que só dá para ser usada com a mão direita. E ficou pensando na sua canhotice. Olhou para as 3 taças alinhadas e com tamanhos diferentes. Primeiro pensamento: elas poderiam servir para emitir sons diferentes. Olhou distraidamente e não moveu um músculo sequer quando o garçom chegou com o vinho - deixou que ele distribuisse na caixa de percussão correta. Pousou os talheres no prato; mas era para deixá-los ao lado do prato. Esfarelou o pão sobre a toalha da mesa, um pouco atabalhoadamente, mas com a displicência de quemnãoestánemaíparaapaçoca. Todas estas pequenas regras da etiqueta à mesa, ah, são de uma inutilidade absoluta.

Misturou cuidadosamente o feijão com macarrão até o tom perfeito de preto e cortou tudo com a faca. Tomou a sopa e fez shrulp com a colher sem contar os respingos que caíram na camiseta furada de dormir. Com os olhos semi-cerrados na manhã preguiçosa de quarta-feira, abriu a geladeira e pegou automaticamente o iogurte. Raspou o cantinho para remover o papel laminado. Não conseguiu. Quebrou a ponta do pote e levantou o papel. Ainda com os olhos semi-cerrados, automaticamente lambeu o iogurte do papel e também do dedo melado. Pegou a manga que caiu no quintal mas da árvore do vizinho. Apertou. Deu uma fungada (na manga, não no vizinho). Preparou-se mentalmente para se melar. Foi apertando, amassandoamassandoamassando, até que se sentiu que havia só líquido por baixo da casca. Fez um furinho com o dente, e schupchupchup. Todas estas pequenas inutilidades à mesa, ah, são de uma delícia absoluta.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Caminando por la Meseta

As velhas senhoras caminhavam pela cidade de braços dados. Impecavelmente penteadas. Indiscutivelmente maquiadas. Pequenas, com seus casacos longos, pareciam pequenos tarugos ambulantes. Desafiavam a osteoporose do alto dos seus altos, mas mantinham-se empertigadas e com um ar nobre, digno. O vento gelado trouxe o primeiro assunto da noite: a comparação entre as pensões recentemente depositadas nas suas contas. A seqüência natural foi a discussão para onde iriam juntas na próxima viagem para torrar a pensão. Em alguns segundos, as duas gargalharam em coro e imediatamente reclamaram de suas noras e como os netos estão mal alimentados. Trocaram instantaneamente segredos de suas receitas mais especiais e se surpreenderam por descobrir uma ou outra coisa que nunca tinham pensado a respeito. Pararam a caminhada em frente à farmácia enquanto umas crianças atravessavam a rua. Entreolharam-se. Sabiam que aquilo era o que dava alegria àquela altura da vida. E continuaram a caminhar em direção ao café.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sinéad O'Connor: tosqueada e selvagem

Blowg tinha dito que Sinéad O'Connor tinha envelhecido mal e isto me preocupou. Afinal, tinha um show para ver e não queria me decepcionar. Tinha assistido na TV uma performance dela cantando uma música do Andrew Lloyd Weber para Jesus Cristo Superstar, I don't know how to love him. E a velha Sinéad ainda estava lá na telinha da TV. Muito embora não mais absurdamente careca ou punk, mas uma rebelde quarentona de jeans velho e moleton nãoestounemaí.
Mecanicamente baixei todas as expectativas para o que eu ia assistir. Quando ela entrou no palco do Royal Festival Hall, juro que eu me assustei e pisei com meus dois pés na minha expectativa. Sim, as aparências determinaram o choque - prefiro não comentar porque minha descrição seria discutível, mas confiram a única foto decente que consegui tirar. Pensei no vaticínio do Blowg.


Mas aí, fez-se som.

The emperor's new clothes, seguido de You made me a thief of your heart, a indefectível Nothing Compares 2 U. Direto da Bíblia, ela mandou ver If you had a vineyard e outras do álbum Theology. I am stretched on your grave já era poderosa no estúdio mas ao vivo adquiriu um batidão assustador. Assim como a minha favorita, a curtinha, This is the last day of our acquaintance. Banda afinada, bateria pesada acompanhada do super baixo para o efeito batidão e violino para os efeitos eusouirlandesasimedaí. Para fechar nada como Thank you for hearing me.

Acho que estava com medo que ela realmente tivesse envelhecido mal, e eu idem, me carregando junto. Poderia não mais reconhecer aquela que cantava Mandinka há 20 anos atrás. Mas não é fato. Enfim, ela pode não estar mais totalmente careca, mas continua selvagem. Shorn to be wild.



E, a propósito, fico fora da minha base de operações na ilhota da Rainha durante 1 semana. Vou tentar publicar a partir do meu posto avançado no continente, mas não garanto nada...

domingo, 11 de novembro de 2007

Siena e Palio, não os carros

Siena é um modelo de automóvel no Brasil, certo? Certo! Mas também é uma cidade de uma história fascinante encravada nas colinas da Toscana.

Siena se descola do controle espiscopal no século XII, desenvolve sua própria constituição, refletindo o seu poderio econômico. Naturalmente as artes também são favorecidas e a escola de Siena vai influenciar outros pintores através dos séculos. Agora a The National Gallery reúne pinturas e esculturas da Siena Renascentista - impressionante.
No século XIII, antes de ir para batalha nos campos de Montaperti contra seus eternos rivais de Florença, a cidade se colocou nas mãos da Virgem Maria. Os florentinos tinham um exército muito maior, mas Siena os venceu. A vitória foi tão esmagadora que, se hoje em dia há qualquer embate esportivo entre Siena e Florença, os torcedores de Siena assustam os florentinos com um ameaçador Lembrem-se de Montaperti.
Palio é um modelo de automóvel no Brasil, certo? Certo! Mas também é uma corrida de cavalos em Siena. Mais do que isto, dando continuidade à devoção à Virgem Maria, 10 cavaleiros representando 10 dos 17 bairros de Siena disputam uma corrida de cavalos sem selas. A pista da corrida fica em torno da Piazza del Campo, a praça principal de Siena, e o vencedor - pode ser apenas o cavalo vencedor porque o jóquei maluco sem sela pode cair no meio do caminho - leva para o seu bairro a bandeira pintada com a Virgem - o Palio.


Siena só cai perante Florença no século XVI depois de 18 meses de sitiada. Mas ainda hoje mantém seu porte e beleza.

Imagens: Francesco di Giorgio, 'Saint Dorothy and the Infant Christ', about 1460.London, The National Gallery; Piazza del Campo, por Tetraktys.

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome

Está estreando no mundo inteiro Lions for Lambs. Isto significa ter que assistir aos documentários dos backstages e aquelas entrevistas com os atores. Fórmula já está decorada, entrevistado e entrevistador frente a frente, banner do filme por trás do ator, muita cortesia, algumas tiradas com senso de humor, algum constrangimento, enfim, nada que já não se tenha visto antes. Mas aí aparece Meryl Streep, e a gente se pergunta de que planeta ela saiu, em nome do Santo Oscar. O discurso, as pausas, olhares e meneios de cabeça, tudo tem um propósito e um significado. Esta daí não veio ao mundo ao passeio, veio sim para deixar a gente boquiaberto.

sábado, 10 de novembro de 2007

Qual história, Wishbone?

"What's the story, Wishbone? What's this you're dreaming of? Such big imagination on such a little pup. What's the story, Wishbone? Do you think it's worth a look? It kind of seems familiar Like a story from a book Shake a leg now, Wishbone Let's wag another tale Sniffin' out adventure With Wishbone on the trail Come on, Wishbone What's the story, Wishbone?"

Putz eu curtia muito o Wishbone.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Diga 'não' a presentes que são um lixo

A Oxfam é uma organização de desenvolvimento, ajuda e promoções que trabalha com outras para acabar com a pobreza e sofrimento através do mundo (já ouvi falar de um presidente que diz fazer isto). Visite o website para saber um pouco mais sobre eles: Oxfam.

Pincei a campanha do Natal deste ano que já está pela cidade. Eles querem donativos para serem convertidos em fertilizantes, preservativos ou mesmo banheiros para comunidades necessitadas. O gancho é a presença de celebridades com a fita decorativa na boca e os dizeres "Speak out against the horror of RUBBISH PRESENTS!". Atrai os olhares imediatamente. Sim, porque a gente ganha cada lixo às vezes... Mas, por baixo da brincadeira, a proposta é mais nobre. É possível assistir a propaganda que será veiculada na TV na página da Oxfam (clique aqui).
A foto da Helena Bonham Carter é hilária, tomara que a campanha dê certo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pequeno léxico de expressões absolutamente inúteis

Momento profundamente superficial. Novas expressões garimpadas pela equipe da GQ (versão impressa, edição inglesa, publicada em Outubro de 2007). Há outras por lá, mas gentilmente traduzi só algumas que achei relevantes (?).
Oh-no second ou aquela fração de segundo em que você constata que acabou de fazer a maior cagada, por exemplo, clicou em 'responder a todos'.
Monkey bath é aquele banho tão quente que, quando você entra na banheira (ou eventualmente embaixo do chuveiro), você sai pulando e gritando 'Uu! Uu! Uu! Aa! Aa! Aa!'
SITCOMs (acrônimo para Single Income, Two Children, Oppressive Mortgage) denomina o que acontece quando yuppies têm filhos e um deles pára de trabalhar para ficar em casa com as crianças ou inicia um 'home business'.
Aeroplane Blonde é aquela que tingiu o cabelo de louro (ou descoloriu ou foi para a água oxigenada) mas ainda tem uma 'caixa preta'.
Johnny No-stars é o apelido daquele carinha de inteligência abaixo do padrão, o típico adolescente que trabalha num fast food. O No-stars vem daquele crachá com estrelas que o staff usa para mostrar o seu nível de desenvolvimento/treinamento.
Assmosis é o processo através do qual algumas pessoas parecem absorver sucesso, evolução, avanço muito mais através da puxação de saco do chefe do que por esforço próprio.
Adminisphere define as camadas organizacionais que estão acima da candangaiada, do chão de fábrica, das castas medianas do escritório. Decisões provenientes da adminisphere são geralmente profundamente inapropriadas ou irrelevantes para os problemas a que se propuseram resolver. Está também relacionada com a expressão administrivia, ou seja, papelada e processos inúteis.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A talentosa Sra Highsmith

The Mysterious Yearning Secretive Sad Lonely Troubled Confused Loving Musical Gifted Intelligent Beautiful Tender Sensitive Haunted Passionate Talented Mrs Highsmith

Metal contra nuvens

Estava escutando uma compilação de música brazuca. Aquelas músicas escolhidas a dedo...
Algumas são clássicos da bossa nova (Astrud Gilberto, Corcovado) ou jovem guarda (O Rei Roberto, Sua Estupidez 1969). Muita gente boa cantando (Elza me passa o saaaaarrrrrrl Soares com Monobloco, Eu bebo sim) e outros nem tanto (Bonde do Rolê, Solta o frango). Coisas engraçadas (Frenéticas, Feijão Maravilha) e outras que não dá para saber se são engraçadas ou geniais (Mutantes, El Justiciero). Gente dando uma de inteligente (Secos & Molhados, Rosa de Hiroshima), e outros genuinamente brilhantes (Chico Buarque, Eu te amo). Gente que poderia fazer parte da aristocracia (Paulinho da Viola, Timoneiro) e outros, de uma outra elite (Zeca Pagodinho, Deixa a vida me levar). Coisa que um dia me deu vontade pular sem parar (Ira!, Envelheço na cidade), dançar sem parar (Lulu Santos, Descobridor dos 7 mares), cantar a plenos pulmões (Legião, Que país é este?), chorar (Pato Fu, Canção para você viver mais). Y cosas mucho locas (Raulzito, Gîtâ) ou locas demás (Lindomar Castilho, Você é doida demais). Gente charmosa (Marina, Para um amor no Recife) e gente numa terra estrangeira (Gal, Vapor barato 1971). Pequena janela para uma faceta sertaneja (Fafá, Nuvem de lágrimas) e brega-romântica (Fábio Jr., Alma gêmea). Mas aí aparece o pessoal modernoso (Zélia Duncan, Tudo ou nada) e prafrentex (Fernanda Abreu, Rio 40 graus). E muita coisa que não se encaixa em nenhuma classificação mas que significou algo em algum momento da minha curta existência (Paralamas, Óculos; Los Hermanos, Conversa de botas batidas; Luiz Melodia, Estácio Holy Estácio; Blitz, A dois passos do paraíso). E, finalmente, tem coisa que nunca consegui acompanhar (Olodum, Madagascar) ou entender muito bem (Elis, Trem Azul).
Mas enfim, Elis é Elis. Pode fazer qualquer coisa, inclusive brandir Metal contra as nuvens, como a Legião o fez.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

I want my BBC

América Latina não existe para a imprensa britânica. Isto é fato consumado e inquestionável.

Já havia constatado isto durante os Jogos Pan Americanos, que mereceu cobertura zero de toda a imprensa local. Mas é até compreensível que eles dediquem a maior parte do tempo à suas ex-colônias - Quênia, Tanzânia, Austrália, ou mesmo um inexpressivo Canadá. Há também uma fonte inesgotável de curiosidades no subcontinente indiano. Veja só o barril de pólvora (ou de urânio) sobre o qual o Paquistão está sentado, regido por Musharraf - um ditador de quem todos têm medo, em estado de emergência ('Desperate' Musharraf declares martial law).
Conto nos dedos da mão esquerda quantas notícias assisti na BBC sobre a AL ou o Brasil. Uma das últimas foi a escolha do Brazilzilzilzilzil para sediar a copa do mundo (Brazil will stage 2014 World Cup). Estereótipos à parte, acho que a trilogia samba-futebol-mulata deve ser a tônica da crônica local. Esperemos o Carnaval, a Copa e o Carnaval de novo.
Estivemos indiretamente em toda a mídia na semana passada. A Metropolitan Police foi declarada culpada por uma catastrófica série de erros durante a operação que levou à morte de Jean Charles de Menezes no metrô de Stockwell em 2005. Os adjetivos aqui usados para qualificação do caso não é a de um brasileiro em solo britânico, porém a transcrição de um artigo do jornal inglês The Guardian (Met police guilty over De Menezes shooting). O choque dos britânicos é compreensível porque a polícia não carrega armas e a taxa de mortes por armas de fogo é baixíssima. Ter alguém baleado pela polícia é definitivamente absurdo - não, nada de Tropa de Choque por aqui.
Embora bombardeado por todos os lados, Sir Ian Blair, o banbanban da Met, disse que não renunciaria ao cargo porque o caso foi crítico, mas isolado (Guilty, but Blair refuses to go). Vários segmentos da sociedade reconhecem este fato mas acreditam que o comandante de uma organização julgada culpada de erros crassos deveria demonstrar a sua culpa, reconhecer seus erros e expiar seus pecados através da renúncia. Há uma semana Sir Blair tem estado numa corda-bamba, muito mais por questões morais do que factuais.

Blues da Piedade

Artigo encontrado hoje no G1:

Acredito muito na Administração como algo orgânico, quase como um organismo pulsante, um ser vivo. Segundo a teoria evolutiva, o negócio é adaptação ou morte. Estes seres incompetentes mencionados no artigo cercam-se de gente menos capaz que eles para se manterem vivos na organização. Desta forma, tornam-se quase-competentes na comparação e ainda eventualmente podem lançar os ainda menos-competentes ao sacrifício (ou morte ou demissão).
Já entoava Cazuza com toda propriedade nos Blues da Piedade, vamos pedir piedade (Senhor, piedade!) pra essa gente careta e covarde. Vamos pedir piedade (Senhor, piedade!) lhes dê grandeza e um pouco de coragem...

Lembrem-se, lembrem-se

Hoje, 5 de Novembro, é o dia em que os ingleses soltam fogos de artifício e fazem suas fogueiras - o bonfire night, Guy Fawkes' night. Quem assistiu V de Vingança, sabe do que eu estou falando. Até então, pensava que era algo que estava restrito aos filmes, quiçá aos livros de história. Mas o povo aqui celebra a valer.

Escrevo este post em frente à janela (fechada, porque faz 9ºC lá fora; e protegendo-me com um aquecedor) e há fogos à todo momento lá no lado sul do rio, sem contar o barulho dos pipocos. Sábado fui assistir a uma exibição de fogos no Alexandra Palace - supostamente o melhor da cidade, porém nenhum revéillon em Copacabana. Tentei tirar umas fotos, mas ficaram absolutamente lousy. Além disto, ou se aproveita ou se tiram fotos. Optei pelo primeiro.

O objetivo é o de não esquecer o que acontece com um traidor. Para protestar contra a intolerância do sucessor de Elizabeth I aos Católicos ingleses, Guy Fawkes executaria o plano de explodir o Parlamento em 1605, matando o Rei James I, possivelmente seu sucessor o Príncipe de Gales, e boa parte da aristocracia Protestante presente. Seria considerado um terrorista. Tendo sido capturado, Fawkes foi torturado, condenado, enforcado e esquartejado.

Remember, remember the Fifth of November,
The Gunpowder Treason and Plot,
I know of no reason
Why Gunpowder Treason
Should ever be forgot.
Guy Fawkes, Guy Fawkes, t'was his intent
To blow up King and Parliament.
Three-score barrels of powder below
To prove old England's overthrow;
By God's providence he was catch'd
With a dark lantern and burning match.
Holloa boys, holloa boys, let the bells ring.
Holloa boys, holloa boys, God save the King!