terça-feira, 30 de outubro de 2007

Girimum de Ralouín

Covent Garden

Televisão de cachorro

O conhecimento necessário sobre potenciais toxinfecções alimentares me levou a ter pânico de alguns alimentos, práticas culinárias, temperaturas e condicionamentos. Não gosto da idéia do blue cheese forrado de bolores, a promiscuidade das facas num churrasco, ovo frito com a gema ainda mole e carnes (qualquer uma) mal passada. Queria viver num mundo sem microorganismos.
Partilhando a minha experiência inglesa, um dia descobri aqui que, intuitivamente, não conseguia tolerar o frango preparado aqui. Sabe quando você mastiga e engole sem respirar. Ele é devidamente cozido, acredito eu, mas está relativamente macio demais -seja em qualquer preparo. O frango assado não parece estar devidamente assado. Talvez culinariamente falando, ele esteja no ponto ideal para ser degustado. Mas não me convence.
O franguinho brasileiro - o nosso assado - condicionado na televisão de cachorro é formidável. É sequinho e coberto por uma indefectível casquinha crocante. A farofinha de miúdos do recheio pode ser um pouco mais umidecida para fazer o contraponto. Para deixar com um gosto de domingo-classe-média, a imbatível maionese também ajuda a quebrar a secura da ave.
Suspiro.

domingo, 28 de outubro de 2007

Este é o capitão

Depois de aterrisar num aeroporto e a aeromoça diz welcome to Shangri-la, it's 4:50 AM, e aí ela engancha num discurso absolutamente ininteligível. Simplesmente porque, depois de passar o recado na sua própria língua, elas falam rápido demais para se livrar do mico de falar em inglês. Talvez seja por isso que todos levantem antes do sinal de cintos afivelados sejam desligados.
(O passageiro) Eu queria um iogurte de morango... (A aeromoça) Claro! Só um momento... (A aeromoça, na área isolada separando o iogurte) Este povo não toma iogurte em casa, aí quando viaja fica pedindo iogurte. E ainda exige o sabor! É o fim da picada... Esta é uma transcrição de cabeça de um esquete da TV Pirata com a Regina Casé sendo a aeromoça. Piada? Pode(ria) ser a mais pura verdade.
Viajar em companhias aéreas de países diferentes dá uma noção de como são as pessoas fisicamente naqueles países. As polonesas, gordinhas. Os portugueses, mais velhos que a média. As holandesas, ruivas e rosadinhas. Estereótipos.

sábado, 27 de outubro de 2007

Juliette Binoche sem proibições

Uma das melhores capas que eu já vi, coisa de gente grande para gente grande - forma e conteúdo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Padecer no Paraíso

Rasguei algumas folhas de relatórios antigos. Gostava do barulho surdo qurrrr e da sensação do poder de destruição nas minhas mãos. Podia decidir pela sobrevivência de algumas idéias e isto dava um certo significado àquela atividade banal.
Quando você me perguntou sobre a vida, sobre o que eu estava achando de tudo aquilo, se eu estava gostando, limitei-me a um monossilábico ok. Havia escolhido a estratégia incorreta para me livrar de explicações adicionais - resultante da minha falta de diploma nas artes sociais. O choque que eu provoquei foi a principal razão para enfeitar o ok com descrições, comparativos, contrastes, vantagens e desvantagens.
Fui criando um roteiro que repeti à exaustão até que abandonei a abertura do discurso: ok. Ele foi sumindosumindo até que a história que eu contava foi se tornando Absoluta. Os fatos foram encantando olhos que facilmente brilhavam, sorrisos se abriam e a inveja que é uma merda pipocava. E as palavras foram tomando um peso diferente, tornaram-se concretas depois que o floreado foi abandonado. Fizeram sombra a todos meus pensamentos transtornados que pareceram repentinamente desimportantes. Padecer no Paraíso adquiriu um novo sentido para mim.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Uncle!

Estive ausente recentemente por vários motivos, inclusive devido a uma ida à terra brasilis para uma runião com os caciques da minha tribo. Tudo deu certo na pajelança e já voltei até com mais trabalho, mais selvas para desbravar.


Outro motivo foi uma sobrinha postiça que me visitou. Durante algumas semanas, a Srta S chegou de Toronto e partilhamos o mesmo teto. Já me adotou como Uncle no metrô. Eu, tio-avô, já havia me desacostumado a ter alguém me chamando de tio - de repente, me tornei uncle. E foi um tal de uncle para cá, uncle para lá. A família toda foi apresentada para os vizinhos de mesa num pub - enquanto o dedinho apontava para cada um de nós: Mama... Papa... Uncle... De tão simpática, a minha sobrinha ganhou uma canção do busker em plena Portobello Road.



E a Srta S reclamou em alto e bom som porque não queria deixar de assistir o busker. A vingança foi ficar tirando o sapato, enlouquecendo a mãe por tirar a meia também. Ela já havia gentilmente permitido que carregássemos todos os mantimentos comprados no mercado de Borough no seu carrinho - bem que merecia uma melhor contra-partida - azeitonas, patés, Haggis, Apfelstrudel, queijo fedorento. E a pobrezinha naquela noite teve que se contentar com baby food de potinho. A vida não é justa mesmo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Para o infinito e além

Já tinha escrito sobre o fundo do poço. Orhan Pamuk descreveu a queda de um corpo num poço em I am a corpse. E agora eu cheguei ao fundo do meu poço pessoal. Dei uma de Cazuza. Exagerado. Exagerei nas drogas lícitas, exagerei no stress, exagerei em esquentar a mufla, exagerei nas noites mal dormidas, exagerei na ansiedade, exagerei nos meus transtornos. E o meu corpo, combalido, reclamou. Hipertensão.
Honestamente a mortalidade bate de leve, mas sorrateiramente, à minha porta novamente. E isto me assustou. Não compreendi muito bem o que estava se passando por uma fração de segundos, mesmo porque minha pressão sangüínea era normal. Até que a imagem do poço veio até a minha mente.
Estou feliz por concluir minha indecente espiral descendente. Porque agora só me resta tomar a direção contrária. Para o alto e avante, to infinity and beyond, porque agora só resta subir, começar novo ciclo, respirar apropriadamente de novo.