sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O fundo do poço

Enquanto não viu o fundo do poço não parou de cavar. Compulsivamente. Peso oscilante. Humor cambaleante. O adormecer atrasado, o sono intoxicado, o acordar pesado. Gauloises galore. A agenda auto-imposta impedindo tempo para si. Impedindo o sacrossanto tempo para fazer nadação - fazer absolutamente nada. Mas continuou a cavar até que as unhas ganharam um contorno preto da terra preta se entranhando sob elas. As pontas dos dedos começaram a arder e avermelhar até que chegou definitivamente o incômodo da dor. A cabeça, os músculos, o estômago, as costas, as pernas - todos revezavam em turnos de reclamações. Quando a dor se instalou, descobriu que era hora de parar. Era o fim. Havia chegado ao fundo.

sábado, 25 de agosto de 2007

Gravidez tardia

Momentos sublimes que chegam muito tarde na vida dão este sabor de gravidez tardia. Fica muito difícil de aproveitar plenamente porque não existe mais o elemento de concretização de expectativas. Já ter abandonado a vontade ou substituído por outras - nem melhores nem piores, só diferentes. A cabeça não está mais preparada nem tão pouco pronta para lidar com a novidade. Resta o consolo de saber que muitos frutos de gravidez tardias são felizes, à sua maneira. Deal with it, já ordenaria Tracy.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Pick of the week: Don't fence me in

Oh, give me land, lots of land under starry skies above, Don't fence me in. Let me ride through the wide open country that I love, Don't fence me in. Let me be by myself in the evenin' breeze, And listen to the murmur of the cottonwood trees, Send me off forever but I ask you please, Don't fence me in. Just turn me loose, let me straddle my old saddle Underneath the western skies. On my Cayuse, let me wander over yonder Till I see the mountains rise. I want to ride to the ridge where the west commences And gaze at the moon till I lose my senses And I can't look at hovels and I can't stand fences Don't fence me in. Oh, give me land, lots of land under starry skies, Don't fence me in. Let me ride through the wide open country that I love, Don't fence me in. Let me be by myself in the evenin' breeze And listen to the murmur of the cottonwood trees Send me off forever but I ask you please, Don't fence me in Just turn me loose, let me straddle my old saddle Underneath the western skies On my Cayuse, let me wander over yonder Till I see the mountains rise. Ba boo ba ba boo. I want to ride to the ridge where the west commences And gaze at the moon till I lose my senses And I can't look at hobbles and I can't stand fences Don't fence me in. No. Poppa, don't you fence me in

sábado, 18 de agosto de 2007

Traumas psicológicos

Desenvolvi dois traumas na vida. Tenho plena consciência dos dois, sei quais são os motivos, e não resisto a eles. Não são travas na minha vida, mas tornam-se preocupações.
Primeiro. Quando vou viajar, deixo a casa em perfeita ordem e procuro avisar às pessoas relevantes o que fazer em caso de emergência. Sim, porque sempre penso que posso não mais voltar e aqueles que ficam não devem ter trabalho em organizar as minhas coisas, meus objetos, roupas, dinheiro. É um pensamento meio mórbido mas tudo começou quando fui fazer uma viagenzinha inocente de final de semana e sofri um grave acidente de carro.
Segundo. Quando os amigos desaparecem é porque estão passando por algum problema sério. Passei por esta experiência recentemente com os Sr R e o Sr S, sem contar eu mesmo. Deixar os sumidos de lado pode ser confortável, mas poderíamos estar fazendo a diferença na vida destas pessoas se fôssemos atrás delas. Como se fosse um resgate. Uma palavra de um velho amigo pode fazer a diferença. Me parte o coração quando é tarde demais. Parece negligência.
Pick of the week - Groove Armada, My friend

terça-feira, 14 de agosto de 2007

The Grand Tour


A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte.

Até o final de agosto, quem caminhar pelas ruas do Soho, Covent Garden e Piccadilly, vai encontrar algumas das pinturas mais incríveis do mundo. A The National Gallery distribuiu pelas ruas destes bairros reproduções de peças encontradas no museu.

É um pouco surreal encontrar as peças, algumas telas enormes, penduradas perto de esquinas, bares, restaurantes. Impossíveis de serem fotografadas dentro do museu, é irresistível clicá-las enquanto soltas pelas ruas. A caminhada para encontrar as peças pelas ruas torna-se o que foi batizado de "The Grand Tour".

O link para o site oficial está aqui: The Grand Tour. Para quem quiser ver as fotos que os transeuntes tiram das peças pelas ruas (recomendadíssimo), o link para as fotos no Flickr está aqui: Flickr The Grand Tour Gallery Pool.

Créditos da fotografia: "Seaport with the Embarkation of Saint Ursula, 1641 Originally uploaded by The Klan. CLAUDE 1604/5? - 1682 - Langley St. - Covent Garden"

sábado, 11 de agosto de 2007

Antes do cochilo

Bocejei seguidamente. Não resistia. Aquele balanço contínuo, a vibração curta e suave sempre serviram para me embalar, me precipitar no sono.
Era assim nos trens - enquanto alongava meu pescoço para encostar minha cabeça no painel e deixar correr a brisa que apaziguava o calor. Era assim no metrô - quando ele adquiria velocidade e fazia curvas nos túneis, e o corpo era jogado suavemente para frente e para trás. Era assim em ônibus - onde eu era capaz de dormir antes que ele saísse da rodoviária, bastava o motor ser acionado. Era assim em aviões - cujo ritual de taxiar pelas pistas me fazia cair num sono tão profundo que não era incomodado nem pela decolagem.
As tentativas de me manter acordado sempre foram ridículas. Os olhos cerravam e eram reabertos em chicotadas. Movimentar-me só servia para acabar numa posição mais confortável ainda. Falar com alguém já chegou a se tornar motivo de embaraço: deixar frases pela metade no meio da conversa não é muito educado.
Sempre capitulava ao cochilo.
Restava tentar lembrar o que havia acontecido no último momento em que estava acordado: alguém vendendo balas tinha acabado de passar, alguém arrumando objetos dentro da bolsa, alguém tentando acomodar sacolas no compartimento de bagagens, alguém contando passageiros no ônibus, alguém acenando para os passageiros no avião.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

And I made you trust in literature #2

CRÉDITOS: Mais uma canção do EBTG serviu de inspiração para o título destes últimos posts.
Clique aqui para ouvi-la.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

And I made you trust in literature

Recebi há algum tempo a convocação do Furacão Omar para as minhas 5 leituras "presentes" e "próximas".

Presente ou o que li e virou clássico...
"O Caçador de Pipas", Khaled Hosseini - li numa tacada só, simples e emocionante, sobre encontros e desencontros, e a influência que tudo isto causa na vida de um ser humano, tendo como cenário o caótico Afeganistão taliban. Em uma palavra: emocionante.

"O Evangelho Segundo Jesus Cristo", José Saramago - a história, todo mundo conhece. Mas só o Zé para escrever sob o ponto de vista do Homem. Se a perspectiva diferenciada sobre o conteúdo já ousada, a forma como ele escreve é radical - um capítulo pode ter um único parágrafo, incluindo aí todos os diálogos. Em uma palavra: maestral.

"Extremamente Alto e Incrivelmente Perto", Jonathan Safran Foer - Surpreendeu-me do início ao fim e me fez viajar na mente do personagem principal: um garoto de 9 anos buscando fragmentos de memória do seu pai, morto nas Torres Gêmeas, através de uma chave onde está escrito Black. O garoto não é nenhum gênio, ele só sente demais. Em uma palavra: indescritível.

"Primo Basílio", Eça de Queiróz - Basílio é um dos personagens mais deliciosamente fdp do mundo. Seduzidos pelo romântico Basílio, envolvidos pela suavidade apaixonada de Luisa, chantageados odiosa e merecidamente por Juliana, somos enganados como Jorge. Em uma palavra: amoral.

"A Insustentável Leveza do Ser", Milan Kundera - Lembro-me que foi uma dificuldade ultrapassar o primeiro capítulo Einmal ist keinmal. Não entendia de jeito nenhum onde aquele cara queria chegar. Mas quando as peças se juntam, o livro fica brilhantemente envolvente. Nunca mais Kundera foi tão bom. Em uma palavra: desbunde.

Estou lendo ou que podem virar clássicos depois que eu julgá-los...
"A Thousand Splendid Suns", Khaled Hosseini - Mais um do Hosseini, mais um mergulho no Afeganistão. Hosseini é econômico nas palavras, seco mas a perspectiva que ele usa habilmente nos faz sentir compaixão e solidariedade pelos desfavorecidos. Não há dúvidas sobre os mocinhos e os bandidos da história.

"Revolutionizing Product Development", Steven Wheelwright & Kim Clark - Tudo-o-que-você-sempre-quis-saber-sobre-desenvolvimento-de-produto-mas-tinha-vergonha-de-perguntar. Descobri este livro depois que notei que algumas empresas de ponta em inovação usavam sua teoria. Os autores tratam os assuntos mostrando as práticas usuais - erradas - e depois descrevem como deveria ser feito. Naturalmente dei muita risada porque me identifiquei com os casos de práticas errôneas. Um pouquinho da comédia da vida corporativa.

Futuro ou que só a Deus pertence...

Clássicos da Língua Portuguesa - Outros do Saramago, Guimarães Rosa, Veríssimo (Érico e Luís Fernando), Euclides da Cunha. Existem tantos livros na nossa língua, aclamados em praça pública, que não li que dá até vergonha. Por isso, pretendo me redimir no futuro próximo.

Salman Rushdie - Ele foi incensado e quase incendiado durante o episódio d'Os Versículos Satânicos, mas é fato que ele escreve bem. Quero ler outras coisas dele para confirmar. Acho que o contexto, o fato de estar aqui no Reino Unido, vai ajudar a colocar algumas coisas em perspectiva.

James Ellroy - Tudo começou com o L. A. Confidential e a Kim Basinger e o fdp do Ed Exley. Os livros deles são tijolões, mas tem uma hora em que a adrenalina e a ansiedade sobem e não dá mais para largar. É um tour-de-force, mas vale a pena.

Como obrigação, tenho que passar a lista. Convido minhas ligações perigosas FE CLANDESTINA, LITTLE MISS SUNRISE & EDMONT a darem continuidade à lista em seus blogs. Boas leituras.

domingo, 5 de agosto de 2007

sábado, 4 de agosto de 2007

Possivelmente separadas na maternidade

Este cabelo, esta atitude, este copo (ou garrafa) com alguma bebida alcoólica...
Como é que eu não pensei nisto antes?!!!

Patsy Stone

Amy Winehouse

Changing Of The Guard

'Changes of clothes and Summer showers like changing the guard: it only lasts for hours. Wondering what and where did it go? Crying over nothing worth crying for... Once in a while - I still think about the smile on your face girl, the first time around. I'm wondering what and who your doing it with. Crying over nothing - worth crying for, still... Just now and then - I still get it, that same old feeling, I can't forget it. Wondering why and where did I go. Trying not to let myself - need you so... Changes of mind - I have my doubts. I'm sure I was right but I'm not sure now. Wondering why and where did I go. Trying not to let them get to me so... Once in a while I just can't help it. It's that same old feeling and how I regret it. Wondering why I miss you so, crying over nothing worth it all. Baby please, if there's a chance, let's throw out the past and get something back. I'm wondering why did we part at all? Crying over nothing worth crying for, crying over nothing worth crying for, crying over nothing worth crying for...'

Mudando a Guarda

O final de semana com o tempo mais bonito desde que eu cheguei na ilhota da Rainha. Não haviam nuvens, talvez só o rastro dos indefectíveis aviões rasgando o céu. Restou me afastar por cerca de uma hora do centro de Londres e vasculhar a casa da rainha em Windsor, aproveitar o sol no alto da colina Castle Hill e na longa alameda Long Lane.
Movimentação estranha dentro palácio, hordas de turistas se concentrando numa área do palácio... HA aqui em Windsor também há Troca da Guarda. É um pouco mais democrática ou menos monárquica que a de Buckingham, e a plebe rude fica mais próxima da cerimônia.
A banda militar se apresenta com as músicas oficiais quando chega ao palácio. Mas, enquanto a guarda está em processo de troca, ela ataca com o tema de James Bond e Goldfinger. Fantasticamente pouco ortodoxo, deixaria a Rainha levemente corada e Dame Bassey, agradecida. E eu, que gosto de ser surpreendido, satisfeito.
Este blog começa a mudar seu tom de novo. Não para uma alegria descabida, mas para uma alegre melancolia de alquém que mudou a cor das lentes. Deixei de lado o fundo da garrafa âmbar e encontrei uma verde. É diferente e ainda estou me acostumando com ela. Estou mudando minha guarda.
Clique no título para 'Fazer a Festa Começar Neste Sábado à Noite'.

Obrigado

Surpreendi-me com tanta gente se manifestando. Não só no blog, mas também enquanto estive no Brasil. Algumas pessoas, nem conhecia. Outras, honestamente pensava que nem se importavam. Foi um tapa na minha cara ter o apoio sincero de pessoas com quem não simpatizava muito. Foi emocionante ver gente que tem tão pouco partilhando algo que não tem preço: solidariedade. Todas estas pessoas têm peso de ouro para mim agora.

Por vezes, tentamos manter a discrição e ficamos sem perturbar as pessoas. Mas uma pequena palavra pode fazer toda a diferença - porque o que importa é ouvir que as pessoas se importam. Isto faz toda a diferença, ajuda a seguir em frente.

Estou agradecido a cada uma destas pessoas. Faço um muito obrigado coletivo e público. Sei que muitas delas nem leêm o FdG, mas não importa. Meu agradecimento é verdadeiro, talvez uma energia positiva se espalhe e chegue a todos. Obrigado. Grato.
Clique no título para a trilha sonora do post.