domingo, 3 de abril de 2011

Cada escolha é uma renúncia

É muito com o que lidar e o tempo é um recurso limitado. Daí é necessário fazer escolhas.

Havia deixado o FdG em suspenso na esperança de que ele voltasse a ser naturalmente prioritário para mim. Mas não voltou. E eu senti a necessidade de fazer um fechamento, o encerramento de um ciclo muito importante para mim. Começado em 2006, encerra-se agora em 2011 sem melancolia sem agonia mas com muito orgulho e com a devida nobre importância. Expus idéias e escrevi aqui como nunca pensaria uma vez ter podido, logo eu que sou uma pessoa tão visual. Partilhei idéias com gente tão interessante. Alguns continuarão por perto, outros entrarão para a minha memória, já que não poderão ser esquecidos. Eu mudei e muito do que eu sou foi descoberto em posts dispersos aqui e ali. O FdG me ajudou a suportar mudanças de vida, de país, perdas, ganhos, partidas, chegadas, entender sentimentos e endireitar coisas tortas.

Mas é necessário tomar uma decisão e daí eu fecho o FdG a partir de hoje. Forte abraço a todos. Até breve.

"Pour tous ceux qui ont peur, qui sont solitaires ou malhereux, le meilleur remède est à coup sûr de sortir, d'aller quelque part où l'on sera entièrement seul, seul avec le ciel, la nature et Dieu. Car alors seulement, et uniquement alors, on sent que tout est comme il doit être et que Dieu veut voir les hommes heureux dans la nature simple, mais belle." Anne F.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Noite estrelada

Eu sou um puta fã do Van Gogh. Eu adoro os azuis, os amarelos e todas as suas misturas no meio termo. Viajo na textura, viajo nas pinceladas grossas e espirais. Sinto a brisa dos campos pintados, o vento mais forte do campo aberto e seu trigo vibrante. Descanso com seus trabalhadores. Fotografo seus interiores e me teletransporto para lá. Como nada é perfeito, confesso que não curto muito a influência japonesa dos Ukiyo-e quando abertamente japonista, mas quando ele coloca o vangoghnismo, meus olhos não conseguem se dispersar. Se tudo desse errado em Amsterdam - o que finalmente não aconteceu - queria apenas garantir que iria no Van Gogh Museum. Fui lá no dia 27 de setembro - que também foi um dia emblemático. Ainda tenho que ler o livro das cartas de Vincent a Theo, seu irmão, e viceversa. Quero conhecer um pouco mais desta relação. Finalmente o cara era literalmente muito louco. Exemplifica a relação da sanidade mental e a genialidade artística. Vincent ultrapassou todos os limites.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quinta sem lei




When you ate I saw your eyelashes, saw them shake like wind on rushes in the corn field when she called me. Moths surround me - thought they'd drown me. And I miss your precious heart. Dry rose petals, red round circles. Frame your eyes, and stain your knuckles. Dry rose petals, red round circles. Frame your eyes, and stain your knuckles. And all those lonely nights down by the river brought me bread and water, water in. But though I tried so hard my little darling, I couldn't keep the night from comin' in. And all those lonely nights down by the river brought me bread and water, kith and kin. But in the quiet hour when I am sleepin' I couldn't keep the night from comin' in. Why you gone away? Gone away again. I'll sleep through the rest of the day, if you're gone away again. I'll sleep through the rest of the day, sleep through the rest of the day, sleep through the rest of the day. Why've you gone away, away? Seven suns, seven suns away, away, away, away. Can you hear me? Will you listen? Don't come near me, don't go missin'. In the lissome light of evenin', help me cosmia, i'm grievin'. And all those lonely nights down by the river brought me bread and water, water in. But though I tried so hard my little darlin' I couldn't keep the night from comin' in. And all those lonely nights down by the river brought me bread and water, kith and kin. But in the quiet hour when I am sleeping I couldn't keep the night from comin' in. Beneath the porch light we've all been circlin', beat our duck's hearts, singe our flower wings. But in the corner, somethin's happenin'. Wild cosmia - what have you seen? Water wet her limbs, fire warms her hair. And then the moonlight caught her eye and she rose through the air. Well if you see true light, then this is my prayer, oh will you call me when you get there? And I miss your precious heart. And I miss your precious heart. And i miss your precious heart.And I miss your precious heart. And I miss your precious heart. But release your precious heart to its feast, oh precious heart milkymoon.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Memórias de uma fotografia em branco e preto

Meu irmão Anselmo e eu.

Esta foto ficou perdida durante muito tempo até que pude recuperá-la. Cheia de significado, ela tornou-se um pequeno tesouro para mim. O autor desconhecido tirou esta foto em algum momento após abril de 1971.

sábado, 27 de novembro de 2010

As pombas que descem

As fotografias abaixo foram feitas por mim e são três flagrantes de batismo no Rio Jordão. Apesar do local ser pasteurizado, ou seja, pronto para hordas de turistas cumprirem mais uma tarefa na Terra Santa, eu acho que consegui alguns momentos de candura. Gosto do brilho branco emergindo da dama da água, da alegria genuinamente ingênua da criança sendo levada ao seu batismo (reparem no detalhe do seu chapeuzinho), e, finalmente, de um batismo isolado, mais distante e tão reservadamente sagrado na sua intimidade. Revoadas de pombas passam sobre eles.



E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judéia, e dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. E este João tinha as suas vestes de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre. Então ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão; E eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados. E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão. E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo. E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará. Então veio Jesus da Galiléia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele. Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim? Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu. E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. (Mt 3)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Água de se banhar

Israel é um país seco, árido, duro, quente. Paradoxalmente, o que eu mais gostei lá foi a água para se banhar.

Primeiro, o Mar Mediterrâneo que lambe as praias calmas de Tel Aviv e enche de um azul mezzo salgado o horizonte. Orna a atmosfera quase sufocante do balneário e permite ao povo, jovem, que desfile com o despojamento característico das cidades costeiras. Camiseta, bermudas, chinelos. Sensualidade exaurida pelos poros. Afinal , já se diz, in Tel Aviv we play - in Jerusalem we pray.

A segunda fonte de água foi o Mar da Galiléia, palco de vários feitos de Jesus - o milagre da multiplicação dos pães e peixes, bem como andar sobre as suas águas. Embora tenha tentado, só me foi possível mergulhar e nadar para lá e para cá. É um Mar de água doce - na verdade, um grande lago. Águas mornas, doces, de transparência moderada. E eu ficava olhando abestalhado as colinas de Golan, território sírio ocupado por Israel com seus assentamentos e imaginando aqueles vilarejos secos de gente seca e dura que um dia pararam para ouvir o Homem. Eu mesmo tinha acabado de comer um peixinho frito: o peixe de São Pedro, ou a nossa famosa tilápia. Trouxe umas conchas da beira do mar, deste mar especial, souvenirs que vale muito.

A terceira presença marcante da água foi no Rio Jordão. Ali, João Batista batizou o Homem. Na verdade, o local do batismo não é acessível. Resta uma grande comoção entre aqueles que vão àquelas margens banhar-se, batizar-se. Não, confesso que não o fiz. Foi-me suficiente molhar a minha mão e me benzer. A comoção era grande demais para mim: gente chorando, gente vestida com túnicas brancas, gente mergulhando, padres, pastores. Lembrou-me a cena no Rio Jordão no A última tentação de Cristo. Recolhi-me.

Finalmente, o Mar Morto. Nenhuma descrição fará justiça a o que o lugar realmente é. Passamos por ele enquanto íamos às ruínas de Masada. Todo aquele azul era doloroso e fazia contraponto à secura do entorno. Seguíamos numa espiral descendente desde que havíamos saído de Jerusalém. Desce, desce, desce até os fatídicos 422 metros abaixo do nível do Mar. Primeira sensação, a água é macia dada a sua concentração altíssima de sais.

Recebemos instruções clara de como comportar-se quando dentro d'água - não molhar o rosto, não deixar cair água nos olhos, não nadar com a barriga para baixo. Apesar de contrariado pela lista de itens começando com não, obedeci, mas não sem antes reparar num grupo de indianas que ignoraram completamente estas regras e pareciam se divertir bem mais (com exceção daquelas que saíam amparadas da água porque seus olhos estavam queimando).

Todos dizem que tudo bóia no Mar Morto. E dão risadas por associações escatológicas. E eu confirmo tudo. É uma sensação bizarra, fora deste mundo. Erga as pernas um pouco e logo elas estarão flutuando sem qualquer tipo de esforço. Move-se para lá e para cá e o empuxo é violento. Demora-se um pouco a habituar-se com aquela sensação. Sensação de gravidade zero onde a pressão atmosférica é a mais alta do planeta.

E tudo é água. Em meio à vasta secura, tudo é um pouco de emoção.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A mãe do Borat

Viajei de Amsterdam para Tel Aviv via Bucareste com a infame TAROM. Estive na Romênia há uns 10 anos atrás e a atmosfera opressiva comunista se mantinha embora a transformação em algo capitalista estivesse em curso. É notório que os anos por trás da cortina de ferro deixou marcas indeléveis: pessoas ríspidas, duras desde o tom de voz. Tendo o embarque em Amsterdam terminado, uma atarracada comissária contava aqueles à bordo. Um desavisado. coitado, levantou-se talvez para se esticar, talvez para pegar algo no compartimento superior. Ela para sua contagem e berra em inglês, Sente-se. Já. Não há nada para fazer de pé. Sente-se. Não haviam interjeições, por favores ou obrigados. E eu enfiei minha cara na revista de bordo.

À espera do embarque no portão do Aeroporto Otopeni, eu observava o povo na fila. De repente, vi uma velhinha e imediatamente me veio à cabeça: é a mãe do Borat. Inventei para mim mesmo uma história: era a primeira vez que ela viajava de avião, a primeira vez que havia saído de seu vilarejo perdido nos Balcãs para ver in loco o que o seu padre cristão ortodoxo contava nas missas. Usava um lenço florido na cabeça com um nó sob o queixo do rosto enrugado. Corpo empertigado. Sem sorrisos. Seu casaco era pesado e tinha uma espécie de pele animal na gola, punhos e nas beiradas. O animal abatido devia ter sido um camelo, possivelmente sujo. E eu pensei, sou um cara de sorte - ela vai se sentar ao meu lado.

Embarquei para o trecho final da minha primeira viagem para o Oriente Médio e fiquei procurando o meu assento - corredor, comme d'habitude - e a mãe do Borat. Quando o localizei, a mãe do Borat não estava ao lado. Ops! Mas havia alguém sentado no meu assento. Ops, ops! A mãe do Borat estava ao meu lado; só que do outro lado do corredor. Cara de sorte... Quando provei que o assento do corredor era o meu, a dama que havia incorretamente o tomado teve um acesso de claustrofobia. Eu, compreensivo e tranquilizador, disse-lhe que daria o assento do corredor desde que ninguém se sentasse na janela - sim, porque também sou claustrofóbico. Mas o vôo estava lotado e o dono do assento da janela - que depois comprovou ser um elemento roncador - chegou. Portanto, sorry mas eu ficarei aqui mesmo, e apesar da mãe do Borat. A propósito, foi só o avião levantar vôo e o acesso de claustrofobia dela desapareceu como por encanto. Engraçadinha.

Enfiei minha cara na revista de bordo novamente. Já havia quase decorado os artigos desinteressantes escritos com inglês duvidoso. De repente, a manga da minha camisa é puxada. Pensei, What kind of fuckery is this? Era a mãe do Borat. Cara de sorte. Ela falava comigo possivelmente em romeno e eu fiz minha cara de pontodeinterrogação. Ela continuou até que me mostrou o cinto de segurança que não conseguia atarrachar. E lá fui eu explicar via sinais até que desisti e fechei-o eu mesmo para ela. E ela ficou quietinha até que chegaram os passageiros que sentariam ao lado dela. E ela não sabia mais como abrir a fivela do cinto de segurança e a confusão formou-se. Até que uma comissária, grosseira, chegou, possivelmente a xingou e a livrou do seu cinto. Enfiei minha cara na revista de bordo novamente.

O avião estava taxiando. E eu ouvia um cochicho, um sussurro, um shshsh incessante. Levantei a cara da revista de bordo e me aventurei a olhar para o lado. Mamãe de Borat tinha sua mão direita sobre o assento da frente. Sua mão esquerda estava sobre o pulso e ela estava inclinada com os olhos fechados. Assumi que estava orando. Confirmei só numa segunda olhada de soslaio - ela usava uma pulseira com ícones diversos que ela dedilhava mas, quando chegava a um crucifixo, ela parava e dava três beijinhos devotos na cruz. E lá foi ela shshsh-ando até que atingimos a altitude de cruzeiro. OK, reza de mãe de Borat tem poder.

Depois do jantar servido e os restos, recolhidos, a comissária passou por mim com alguns cobertores. Em seguida, minha manga foi puxada. E novamente, a conversa ininteligível recomeçou. Chamei a comissária e, mal abri a boca e ouvi um aqueleseramosúltimoscobertoresquesobraramdaclasseexecutivaenãotenhomaisnenhum sem pausa para respiração. E eu, com o meu melhor e mais polido inglês, sorry for the misunderstanding, it seems that this lady by my side needs some help but I regret not to speak her language. Momento saia justa, como eu quis. Elas se conversaram secamente e a comissária se foi - nunca soube do que se tratou e tenho até medo de saber.

O avião manteve-se no alto até que o comandante avisou que estávamos nos aproximando de Tel Aviv. E a mãe de Borat recomeçou suas preces. Exatamente como quando levantamos vôo. E aterrisamos suavemente no Ben Gurion. Novamente pensei, reza de mãe de Borat tem poder.

Uma semana depois, eu, cansado depois de ficar quase 2 horas numa fila zoneada para entrar onde Jesus foi sepultado e só poder ficar lá por menos de 1 minuto, sentei-me nas escadas em frente à Igreja do Santo Sepulcro. Minha lombar doía e aquela escada era uma benção. Juntei-me às outras pessoas que faziam o mesmo e observávamos o enorme fluxo de turistas alheios ao conflito judeusversusmuçulmanos. Abri o meu livro guia e o folheei para passar o tempo. De repente, alguém aproveitou o espaço ao meu lado e se sentou. Era uma senhora que... Ops eu já vi esta pulseira antes... ops... é a mãe do Borat!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Andando à toa por aí atrás da felicidade

Apesar de ter voltado já há muito tempo, tenho dado um tempo. Tenho olhado este blog de longe. Tenho o visitado e me revisitado. Tenho juntado algumas histórias, esquecido de outras. Tudo tem sido muito visual. Aí vão algumas imagens de onde fui, vi, me perdi, esqueci, ri. Vivi. No meio-tempo.

Mar Morto. Israel.

Zaanse Schans. Holanda.

Créditos: Fotos minhas, Setembro-Outubro-2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Na maçaneta

Créditos: Skymix

Blog temporariamente em férias. Vou para o outro lado do Atlântico e até o Oriente Médio. Não conta lá em casa. Placa pendurada na maçaneta da porta: "Volto já".